quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

Sinais

Na vida, em quase tudo que vivi, sempre acreditei em sinais (e nos animais). Mais do que em pessoas, muito mais. Os sinais estão em todos os lugares, em coisas pequenas e grandes, depende do ponto de vista, depende de onde se olha ou como e com que olhos. A vida é cheia de variáveis, e o livre arbítrio das coisas se confunde com o tudo pode acontecer, e acontece. Hoje mesmo, acordei saudoso e um pouco consternado de ter passado mais um Natal sozinho (sempre por escolha própria, o Natal é uma data que me deprime de uma forma avassaladora e inexplicável, é um momento em que sempre prefiro me isolar de tudo e, principalmente, todos) e distante de minha familia, minha tia Thânia me enviando fotos dos meus avós vivos e da visita dos meus irmãos feita a eles, ontem. Não pude conter as lágrimas que me inundaram os olhos, agradeci por estar vivo e poder ver aquele encontro, mesmo que distante, agradeci por ter vivido aquilo.

Levantei e tratei de cuidar da minha casa. Preparei algo para comer e depois resolvi que devia incensar o ambiente todo, estava me sentindo um pouco carregado, toda aquela energia solta no ar. Isso nunca é bom, por vezes, é importante reagrupar as energias astrais que pairam no ar, no lar.

Comecei a manusear minhas caixinhas de incenso, buscando escolher os melhores para o feitio do meu intento, com pensamento positivo. Assim que acendi o primeiro incenso e proferi as palavras da prece que estava escrita na caixinha veio, do nada, uma tempestade de vento inexplicavelmente forte. As folhas nas árvores chicoteavam violentamente, de um lado para o outro, em frenesi total. Seguido ao vento forte, veio o estrondo colossal de raios e trovões que gladiavam pelos céus. Nesse momento, o sol perdeu para as nuvens, e o dia ficou cinza, escuro, quase noite. Veio a chuva. E não era uma simples chuva, era um dilúvio. E durou cerca de uma hora a todo vapor, até ir diminuindo aos poucos.

O que entendi disso tudo? 

Que a chuva veio para lavar as impurezas e quebrar o encantos. E que venha o novo ano. E que seja farto de tudo, principalmente de saúde e amor.

sábado, 30 de agosto de 2014

terça-feira, 26 de agosto de 2014

A tua palavra
Pesou demais sobre meu peito
Foi um estrodo
Estava cansado, meus olhos ardiam
pesavam toneladas

Não dava mais, o pensamento estava completamente perdido

terça-feira, 24 de junho de 2014

Delírios e Paixões

Dentro de si, era outra noite estranha
Cada tragada que dava fundo
Parecia buscar as entranhas
Seu o corpo perdido no lodo imundo

Gritava, escarrava, cuspia,
mas era seco e surdo o que ouvia.
Nada se ouvia,
a não ser o eco do seu vazio interior.

Gritos e delírios ecoando em sua mente
A sujeira tomando conta, os pêlos crescendo, por toda parte.
O chão imundo, onde planeja
Deitar sua carcaça e se camuflar, de repente.

Há muito a esconder,
Seu coração tamanho vazio.
Tambor seco batendo no ar frio (e seco)
É tarde, amanhã vai ser tarde ainda, quando o céu se pintar de dia.

Continuará sendo tarde.




sexta-feira, 11 de abril de 2014

Falta do Mar

Sinto falta do mar,
do sol caindo,
dos raios fazendo rastros de fogo
na água do rio, quando a tarde cai.

De por os pés na água morna,
de sentar para sentir a brisa.
De ver o por do sol todo dia
e achar isso, o melhor paraíso.

Sinto falta do paraíso,
do barulho do mar,
do sobe e desce da maré,
do cheiro do acarajé quando é de tardinha.

Sinto falta de beijar o vento
Mirando as ondas do teu olhar

Sinto falta do mar.
Quando anoitece, quando amanhece.
Queria deitar na areia.
Esquecer de tudo, ouvir as sereias.

Navegar, até o meio do mar.
Só voltar quando anoitecesse.
Ficar bêbado de tanto amar.
Há mar em tanto lugar, minha vista cansa, e não alcança.

Sinto falta desse paraíso.
Te beijar mirando as ondas.
Deixar que o mar leve tudo,
até mesmo o nosso juízo.

Faz tempo,
Sempre que entro no mar.
Peço licença.
Pra Yemanjá.

terça-feira, 8 de abril de 2014

para finalizar a qualquer momento

Quando chamou ela para dançar, não imaginava que seria tão torturante. O salão estava vazio. Apenas eles se lançaram na pista. A luz das estrelas. A neblina, que lhe lembrava sua cidadezinha no interior, onde ele foi criança, onde cresceu. (…)

Logo no primeiro toque da pele, mesmo com tantos medos por cima, ele sentiu tudo. Todos os pudores. O calor. A tensão. Aquela buceta consistente batendo na sua perna. Latejando. Chamando ele sem chamar, mandando sinais. Raios. Ondas de eletricidade. Sex Appeal. Palavra estranha, preferia chamar de tesão. Foi o que ele sentiu quando tocou naquela pele: tesão.

domingo, 6 de abril de 2014

HOSPITAL

Nos corredores do hospital
Vi pessoas amputadas, crianças enfermas, enfermeiras aflitas.
Passou bem do meu lado um senhor com o pescoço todo inchado
Parecia um Brotero mal-acabado.

Não conseguia respirar?
E o medo da contaminação?
Da irradiação, de tudo o que pudesse existir naquele ar
Não conseguia ver tudo, nem sabia o que respirava.

Medo de tocar nas coisas, medo de sentar
Medo de secreções, medo de estar ali
Medo, simplesmente, por existir
Queria fugir mil quilômetros até sumir.

Nos corredores,
Me esbarrei com uma criança com a cabeça deformada
Agradeci, por ter apenas deformações pequenas
Todas elas solucionáveis, me senti frágil.

Ergui a cabeça,
E chorei.
Me senti muito frágil.
Agradeci a Deus por não ser aquela criança, e rezei.

Imaginando que ela ainda sorria
Sorri junto
Por dentro estava feliz
Acenei, ela acenou para mim, sorri de novo.

Ela partiu, seu destino a esperava
Fiquei com o meu, destino.
E com meu medo
De estar vivo.




Boa Noite, Querida.

E se eu disser
Que não me preocupo com suas pinturas
Nem como você anda, ande com quem quiser
Pouco me importa do teu sorriso, das tuas loucuras

Já não tenho mais
O desassossego de querer navegar
Sem mar
Sem conseguir vazar, para lugar algum

Um rato rodando numa gaiola
O sol que nasce. O sol que se põe.
O escuro, o brilho solitário das estrelas
Consigo ver tudo, mas só agora.

E se eu disser
Que prefiro não dizer nada
É melhor o silêncio, sempre.
Hora de dizer adeus, seja o que for, boa noite querida.


sexta-feira, 4 de abril de 2014

PARÓDIA da PEDRA

No meu caminho tinha uma pedra

Tinha uma pedra no meu caminho

Tinha uma pedra

No meu caminho tinha uma pedra.



Nunca me esquecerei desse acontecimento

Na vida de minhas narinas tão fatigadas.

Nunca me esquecerei que no meio do caminho

Tinha uma pedra

Tinha uma pedra no meu caminho

No meio do caminho eu fumei uma pedra.



(perdão Carlos Drummond de Andrade)

Cruzar

Cruzar meu mundo com as tuas esquinas.

Essa frase rondando na minha cabeça. Cruzar com você a cada esquina. Cruzar a esquina. Cruzar na esquina. Essa frase cruzando na minha cabeça.

Um cruzamento contínuo.

Paisagens de fim de noite

       Quando mais jovem, sabia de tudo com mais facilidade. Era tenaz. O tempo, com o tempo parecia, enferrujava seu brilho colocando uma película de ferrugem fina, quase transparente. Diante de seus olhos. Em volta do seu corpo inteiro.

       Era tarde, passava da meia-noite. Na parte central da sua cabeça, uma dor leve e caminhante lhe visitava, de vez em quando, vinha e passava, e deixava dúvidas na sua imaginação. O frasco de plástico de molho barbecue Hemmer estava no sofá, logo atrás da sua cabeça, fazia já uns três ou quatro dias. Todo dia, ele via essa embalagem, via e não mencionava nada para tirar ela do lugar onde estava estacionada, talvez esperando mofar de verdade. Sentia que às vezes o tempo parava. Tinha sempre uma vontade de acelerar os dias, de correr com as horas, de atropelar os minutos, pisotear os segundos, dilacerar os milésimos. Pela milésima vez pensou nisso. Que podia ser quântico, físico, ou um guru indiano. Que podia flutuar como antigamente, hoje se pegou falando disso com um amigo, perdido entre lembranças vazias de um passado cada vez mais distante. o Tempo. Esse, já não era mais o mesmo. Nem ele era mais o mesmo. Um passo a frente, e ele não era mais aquela pessoa, do último passo.

       Lembrou repentinamente daquele dia, no samba. Tudo parecia tão diferente. As pessoas, o lugar onde estava, aquele sorriso infinitamente distante. Lembrou e quis esquecer, mesmo que com ternura. A vela ainda estava acesa. Até quando? Até onde ela iria queimar? Quantos dias? Meses? Ou anos ainda? Mais perguntas para sua coleção de não-respostas. Tudo para debaixo do tapete da sua inconsciência. Uma velha mania antiga nunca nos abandona. Pensa que é bom manter os pés no chão e o olhar sempre no horizonte, lembra de seu Pai lhe dizendo isso, talvez tenha lhe dito faça pouco tempo, por isso se lembra tão lucidamente. Ele que já foi tão louco, que buscou a loucura sob todas as formas, que viveu dentro dela e depois se regurgitou, se auto-vomitou, se expeliu de si próprio. Ele que já foi feto, já foi feito, já foi cego. Lembra agora daquele samba? Aquele que ele nunca cantou, nunca dançou, nunca sentiu, nem sambou. O vento bate leve no seu rosto, ele lembra da brisa quente da sua cidade, onde ele já foi alguém - hoje é apenas memória, uma vasta lembrança, ou sombra que vaga de vez em quando, em vôos rasantes e depois some no vento. Sem deixar nada, nem poeira. Suspira. Como faz todo dia, ou quase sempre. Não se sente só. Gosta da solitude, sorve a noite em pequenos goles. Pensa que pode terminar depois, ou que nem começou, porque ele boicotou ou não quis começar. É avesso a começos, e também a finais, principalmente os trágicos, mas adora os tropeços. Esses sim, são dignos de louvor. Os tropeços. Os soluços. Os medos do abismo.

       É tarde. Hora de desligar a mente. Sumir por hoje, para voltar daqui a algumas horas. Paisagens de fim de noite, atormentam tudo que ele pensa. Queria esvaziar a mente. Melhor desligar por hoje, e voltar com a programação normal, daqui a algumas horas. Algumas horas. Nunca voltam. Melhor desligar por hoje. É tarde. Mente. Desliga. Volta em algumas horas. Paisagens de fim de noite ficam grudadas na retina. Desliga. Volta. Algumas horas.

quinta-feira, 3 de abril de 2014

Cor

Sentia o gosto
de percevejo na boca
Sentia o seco
da sua saliva

Era outro suor
que encharcava sua pele.
Outro gemido, outro desejo
Acordava e não tinha mais aquele beijo.

Nem sabia
O que tinha
Se ainda tinha
Não sabia de nada

Sentia apenas o gosto
de parafuso na boca
Sentia o eco
O barulho das coisas batendo

Era outro poema
Outra pessoa que lia.
Não sabia interpretar as palavras
Nem cor tinha.

Nem sabia
Que cor tinha
Se ainda tinha
Não tinha mais nada.

Tudo estava incolor
Dentro dele
Tudo estava indolor
O dia amanheceu assim.

terça-feira, 1 de abril de 2014

ROTINA

Mais um cigarro, ele pensava. Talvez o último trago, pensava outra vez e, logo depois, queria esquecer. Era pensamento ruim. E pensamento ruim não se devia permanecer por muito tempo rondando a cabeça. O tempo estava frio, os últimos dias estavam assim, chovendo leve e constante na cidade cinza. Tentava tragar seu Marlboro de filtro vermelho - o único que ele achava que prestasse - mas o fôlego já não era mais o mesmo. Digamos que cinquenta por cento menos, ou mais. Nem queria medir a tristeza de saber disso, preferia o silêncio e o silvo da tragada. A fumaça ia se dissipando pelo ar, que estava sujo como sempre. A cidade cinza não perdoa ninguém. Esse termo ele tinha ouvido pela primeira vez num dos post alucinados do facebook de seu amigo de longas datas Kadu Carlos. Kadu era um revolucionário da internet, usufruidor do slogan maldito: "Matem Todos!". Cidade Cinza e Kadu tinham tudo a ver, pensava. Lá fora, na rua, barulhos irritantes de motores ligados, algo como uma serra trabalhando compulsivamente se confundiam com o barulho dos pássaros cantando e dos carros passando freneticamente, com pequenos intervalos entre si.

O teclado do seu mac estava quebrado. Seu coração estava quebrado. Deitada ao seu lado, estava Cindy, sua gata mais nova, da raça RagDoll. Bom, pelo menos foi isso que lhe disse seu amigo Alexandre, quando passou uns tempos cuidando dela enquanto ele estava fora de casa, viajando. Dizem que gatos conseguem filtrar as energias negativas, naquele momento, ele se apegava fortemente a esse pensamento, tentando transformar isso numa verdade absoluta dentro da sua cabeça. Os últimos dias tinham sido terríveis para seus pensamentos. Por isso, insistia sempre nos pensamentos positivos, isso quando eles pintavam, davam o ar da graça.

Indiferente, queria viver tudo agora, sem pensar no quanto de lenha ainda tinha para queimar. Olha para o maço de cigarros, rasga o papel da embalagem e nota que ainda restam sete cigarros. Será que consegue ficar com sete cigarros até o outro dia? Será que deveria sair para comprar mais um outro maço e não ter problemas durante a madrugada, ou no dia seguinte? Perguntas. Sempre, perguntas. As mesmas respostas, sempre. Rotina cruel.


domingo, 30 de março de 2014

Táctil

    A mão trêmula. Ia subindo lentamente pelo seu corpo, tateando a pele macia de Suzanne. Seus dedos, um pouco porosos - pelo menos, ele achava isso - deslizavam pelas costas, pernas, braços, pescoço, percorrendo ela por inteiro. Cada curva de Suzanne. 

   Ele tinha tomado um ácido, e não sabia até onde isso poderia ser bom ou ruim. Talvez lhe atrapalhasse na hora do coito, talvez ele viajasse demais nas preliminares. E foi o que subitamente aconteceu. Quando viu aquela semi-ninfeta de pernas abertas bem ali na sua frente, não resistiu e deitou a língua naqueles lábios suaves e macios, os pequenos e os grandes. Não importava, eram todos macios, tão macios que ele imaginava estar sorvendo uma espécie fruta molhada, que não se mastigava, nem se dissolvia. Uma pele de textura bem assedada, bem tenra e suada de tanto prazer. Ali, ao toque da sua língua, que silvava de maneira semi-alucinada, em busca de algo além.

   Enquanto se dedicava, com forte devoção, àquela boceta. Borbulhavam milhões de coisas dentro da sua fértil e alucinada imaginação. Um tubo de ensaio em constante e eruptante ebulição.

Adeus.

Adeus, adeus
Já vou embora.
Não sei a hora
que vou partir.

Só sei que agora
Não é minha hora
Pois ainda estou
Escrevendo para ti.

Adeus, agora.
Chegou a hora.
De ir embora.
Nunca mais sentir.

Só sei que na hora
Que não era a minha hora
Cheguei errado de novo,
mas ainda assim insisti.

Adeus, adeus
Melhor ir embora.

Samba-Coração

Se meu coração
Fosse um tambor
Ele faria uma samba todo dia
Para chamar tua atenção.

Mesmo que você não sambasse,
Eu sambaria.
Sapatearia solitário
Até cair o chão.

Faz baticum
Bate bumbum
Paraca tá tum tum
Meu coração-tambor

Samba-Coração
Chora aqui na minha mão
Teu chorinho quentinho
Quase um gemido, um suspiro, coração.


Faz baticum
Bate emoção
Paraca tá tum tum tum
Nesse Samba-Coração

sexta-feira, 14 de março de 2014

Portas

Hoje acordei respirando
Agradeci.
Ainda estou aqui
Já faz algum tempo

São tantas as portas que bati
Dentro de mim mesmo
E fora
A todas abandonei

Continuei abrindo as janelas mesmo assim
Precisava ver o sol
Ou sentir seu calor 
batendo em mim

Assim como, eu bati em tantas portas
E muitas se abriram
Precisava que batesse em mim 
Para fechar minhas janelas

Minha alma precisa do escuro
Para refletir
Sobre o tudo
E o nada

E se agora eu bater
E ninguém mais abrir
Devo insistir?
Até sangrar meus dedos.

Devo cair de fadiga aos teus pés
E chorar
Todas as lágrimas que ainda me restam
Ou ficar nesse silêncio profundo

Hoje eu acordei sorrindo
Logo depois
Chorei.

O sol já brilhava lá fora, há muito tempo.

quinta-feira, 13 de março de 2014

Poema da Ansiedade

Bate asas,
Passarinho.
Aqui na minha gaiola,
aberta, devassada, escancarada.

Voa pela casa
Se debate entre as paredes
Estrebucha, passarinho.
Até cansar, renunciar o vôo e cair no chão.

Seus olhinhos,
tremendo.
Suas asinhas,
tremendo.

Passarinho afoito
Aflito, agitado, alarmado, angustiado... afligido, tanto assim?
Avezinha desassossegada,
batendo suas asinhas nervosas aqui na minha mão.

Meus dedos, também nervosos
Teus olhos alvoroçados e vazios.
Tudo se confunde, Passarinho.
Quero voar com você.

terça-feira, 11 de março de 2014

barulho de mar

O barulho do mar
Sereias cantando ao alvorecer
Me leva para dentro
Me banha em você

Me deixe, me queixe
Deite comigo na areia
Vamos rolar
Até o dia crescer (dentro de nós dois)

É tudo suspeito
Mas o mar nos chama
Você acendeu a fogueira do céu
O sol brilha nas ondas e me convida

E assim, mergulho sem medo
Abro meu peito
Me jogo no mar
Como se entrasse em você

No meu pensamento
É assim que eu sinto.
O meu instinto
É mergulhar.

Silêncio

É verdade, eu não sei.
Ontem, quando liguei para você
tudo parecia indiferente.
Sua voz estava diferente, a minha também.

O acaso.
Pouco caso.
É um atraso.
Risco que não se deve correr.

Lembro quando você sorriu naquela manhã nascendo
Achei tão sincero tudo aquilo
Quis mergulhar
e mergulhei.

Agora é tarde,
o sol já se foi.
O mar levou tudo.
Nada restou.

Nenhum sorriso
Nem lágrimas
Nem lástimas
Nem abrigo, nem céu colorido.

Ficou só o lamento
A espera do nada.
As nuvens passado
Em silêncio.


segunda-feira, 10 de março de 2014

Ela

Ela vem de mansinho
Com aquele jeitinho
Cabelo jogado ao vento
Cheia de truques com as mãos

Faz trejeitos de leoa
Sabe seduzir
Mas sabe ser vadia
Quando quer.

Busca, ataca, range os dentes
Faz valer seu instinto
É mulher.
E tem o sabor do segredo

Guarda malícia
Segredos insólitos
Pegadas invisíveis
Todas as cores do mundo

Transa de tudo
Principalmente, o que eleva a alma
Tenta não perder a calma
Algo impossível nesse mundo.




Pele

eu quero sentir você
até perder a conta
eu quero mil beijos
e mil vezes roubar teu sorriso

me perder na tua vitória
saborear o teu suor
sentir o teu toque
em todo lugar, desde que seja eu

eu quero acordar, depois de tudo
e sentir que ainda estou dentro de você
como um pensamento, uma tatuagem
que te marca a pele

quero sentir tua pele
marcando meu corpo
sentir você me marcando

pele com pele.

quinta-feira, 6 de março de 2014

Passarinho Esquisito

Como consigo conter
Esse bem-te-vi de asas quebradas, que se debate,
aqui nas minhas mãos.
É minha ansiedade batendo suas asinhas.

Como consigo voar?
Será que te escrevo outra carta
E nela outro poema
Se eu conseguir dizer tudo, você ouve?

Já fico aflito
Só de imaginar
e eu imagino tanto
que fico ansioso e frenético

Pela casa, ando quilômetros,
até meus pés sangrarem.
E não durmo, nem soluço, apenas sonho.
Minha imaginação voa e se desfaz como as nuvens.

Como consigo saber
Se esse passarinho sôfrego
Vai cantar, vai voar até você
Deitar no teu colo, te fitar nos olhos, e modular algum segredo.

Sinto ele aqui, estrebuchando
Minhas mãos, mal consigo conter
Ele piando, piando, piando.
Você consegue ouvir?




quarta-feira, 5 de março de 2014

Scrollbar

A vida passando
Em pequenos frames,
de um filme vazio e invasivo.
Não quero mais viver descendo e subindo uma scrollbar

Não quero mais tragar esse cigarro
Quem sabe assim me livro de vez desse pigarro
Que os obstáculos venham e passem
Não os quero como inquilinos

A vida passando,
numa scrollbar.
Prostrado, os olhos vidrados na tela,
lágrimas furtivas.

Não posso mais insistir nesse desacerto
Mereço um novo começo,
quem sabe assim eu acerto.
Ou erro de vez e acumulo outro tropeço.

A vida passando,
diante dos meus olhos,
por entre meus dedos,
nessa scrollbar maldita.

Até quando?
Vou ver,
vou sentir,
a vida passando.


Lama

Colocado na madrugada
Os olhos vidrados
Pensamentos inconvenientes
Se misturam com a fumaça do baseado.

Vaga uma nuvem sob minha cabeça
Sinto o peso da chuva
Dentro dos meus olhos
São como lágrimas represadas

Coração enleado
Misturado numa lama solta
É engodo, pura intrujice
Buraco de armadilha.

Mete a mão
Se quiser
Se meter
Não me responsabilizo.








Nada Mudou

Nada mudou
Apenas o sorriso ficou meio luxado
O curso do rio interno um pouco revolto
Os barcos batendo uns nos outros

Ademais, nada mudou.

De manhã, acorda, respira, bebe água
Levanta, anda, lava as partes
Faz um café, coça as vistas, apruma o horizonte
Todo dia é hora de ir adiante

Mesmo que sinta,
suas emoções perecendo
como frutas numa cesta de vime.
Respira fundo e segue o curso do imo rio.

Nada mudou,
sente seu barco à deriva
no íntimo rio do seu âmago
Está um pouco mais amargo, fora isso, nada mudou.



terça-feira, 4 de março de 2014

Seja Você

Feche suas portas
Se tranque dentro de suas voltas
Inverta nossos diálogos
Mas, "seja você!"

Não invente
Uma personagem nova
Que não cabe nessa novela
E acaba virando um drama

Agora não, tarde demais
Tempo errando o tempo
A volta nunca é igual (nem na mesma volta)
O tempo passa nos ponteiros do relógio

Estou mudo (e vou ficar assim)
Cego, Surdo, Paralítico
É um grito
E eu grito: "Seja você. Agora!"

CAMUFLAGEM

     Faz anos que observo o comportamento das pessoas, e o meu. Faz anos que sinto o peso dos anos pesando sobre os meus pensamentos, sobre como vou me formando, dos últimos tempos para cá. Dói perceber que o tempo passou tão rápido. Dói sentir que tem coisas importantes que ficaram para trás. E não voltam, nem por decreto. Dói ainda mais perceber que ainda hoje cometo os mesmos erros, mas sempre em busca de acertos, de conquistas, de vitórias.
     A vida é um obstáculo atrás do outro, é como uma corrida de salto em barreiras, você corre e você salta, até chegar na linha de chegada imaginária, que nunca tem fim. Pensar assim é fácil, difícil é viver. Difícil é saltar os obstáculos, e não deslizar. E não sentir o peso das palavras. E do sentimento. Tudo errado, vivemos uma geração confusa e perdida. A nossa geração já é outra, estamos aqui e não estamos mais aqui. Somos meio absortos dentro de nossa própria época. Ainda estamos vivos, oras! Estamos aqui, vivendo ainda, respirando esse ar de agora, o mesmo que achamos que não é mais o nosso ar. Hoje, sentimos que estamos sozinhos, mesmo que não estejamos. Sentimos que estamos vazios, mesmo quando estamos cheios de tudo. Mesmo quando há vida. As pontes existem, algumas te levam a lugar nenhum, outras podem ser portais para um paraíso inimaginável. A terra dos sonhos. Por que pensar assim? Porque somos eternos Peter Pans em busca de terra encantada, ora não. Essa síndrome de não querer envelhecer. De querer ser jovem pelo máximo de tempo que se puder ser. Até quando? Até onde? Qual o sentido de tudo isso, além da ponte, o que há mesmo?

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

"Olho para o céu, vejo meu horizonte crescendo. Quando sinto meu horizonte crescer, ele fica infinito!" (TDM)

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

O COITO


Os corpos estavam grudados um ao outro. O suor impelia por toda a pele, um frescor confuso, uma mistura de tudo, todo o tipo de energia. Fazia muito calor naquela noite, a lua cheia se formava e desaparecia por trás de nuvens volumosas que cobriam o céu da cidade. Encovado em seus pensamento, lembrava do que ela havia lhe dito – que seu olhar enquanto metia na sua boceta molhada era ameaçador, brutal, algo selvagem. E que ela gostava disso. Gostava de se sentir dominada, mas também se interessava por dominar algumas vezes. Esse tipo de pensamento sempre era recorrente para ele. Imagens absurdas se formavam diante de seus olhos, imaginava bocetas. Das mais diversas formas e cores e peles e texturas e fetiches alucinados que não teriam sentido em outra mente, que não a mente pervertida de Pedro Leão, nosso herói selvagem. Elas piscavam diante dos teus olhos, como letreiros imaginários com luzes piscando sem parar. Em big close.

Sentado a beira da cama, o corpo curvo e nu, Pedro acende um cigarro a contragosto de sua parceira que, ainda sedenta por sua rôla, clama por mais sexo, mais metidas fortes e unhas nas costas. Calma garota, isso ele vai dar logo mais, daqui a pouco. O cigarro é apenas uma forma de relaxar seus membros, para depois enrijece-los novamente. É um jogo, e todo jogo precisa de tática, a tática nesse caso, é o cigarro depois do coito para secar o suor do corpo. Nesse momento, outro pensamento repentino invade a mente de Pedro. É um frescor infantil, algo que lhe faz voltar súbito 30 anos ou mais, ele se sente assim toda vez que sente o cheiro de pitanga. E de frente para seu prédio, há dois pés de pitangas que nesse exato momento estão abarrotados de frutinhos maduros, exalando um cheiro doce e saudoso. Ele fantasia que tem de novo oito, sete anos. Chora. Chora copiosamente, sem saber o motivo daquilo, enquanto traga fortemente seu Marlboro Red, jogando a fumaça em círculos nervosos em direção ao único feixo de luz que penetra o quarto escuro, vindo de um poste posicionado do outro lado da rua. Na cama, sua parceira geme leve, sussurra algo, chama seu nome. Ele está distante. Não houve, ou não quer ouvir, se faz de surdo e continua remoendo suas lembranças. Se enrola na sua própria teia, se sente perdido, respira fundo, olha para o corpo nu deitado na cama, saliva. Mexe no pau por entre a cueca de algodão, mexe nos testículos, na glande, busca entumecer o seu membro, antes de cair de vez em cima daquele corpo nu e penetra-lo com voracidade. Antes disso, caminha até seu mac, toca no touch pad e desliza os dedos à procura de alguma canção que lhe agrade, acha alguns discos do Tindersticks e acha pertinente para aquele momento pré-coito. Coloca uma faixa, “No More Affairs”, se convence de que ela pode ser o prenúncio para algo, coisa que ele nem sabe o que é, mas que lá no fundo já sente, sem saber. Volta os olhos pelo quarto, em rodopio lento, frame a frame. Até estacionar em direção da cama, em cima dela, sua parceira mexe a boceta com a ponta dos dedos, abrindo e fechando, abrindo e fechando. Pedro suspira. Um suspiro leve e seco, pensa na sua mãe, se emociona. O pau dá sinais de querer ficar alterado, ele se contenta com isso, pensa em algo podre e sujo, tenta se concentrar naquela boceta lasciva se mexendo na sua frente. Grita. Um grito profundo e aberto, quase um uivo e mergulha com ardor naquele corpo nu, sua pele queima, borbulha em suor e tesão. Ele nem pensa em preliminares, quer apenas achar o buraco daquela boceta e meter nele, com força, com bastante força. Pensa que vai gozar assim que meter, então retém a glande do seu pau perto da vulva, um pouco abaixo do clitóris, excitando sua parceira, que geme leve. Vai penetrando devagar, devagar, até enfiar o pau por inteiro na caverna úmida e macia da xoxota excitada de sua amante. Os movimentos começam fortes, mas tranquilos, aos poucos vai acelerando o ritmo, falando obscenidades ao pé da orelha da orelha dela, chamando-a de “vadia”, “puta safada”, “minha piranha”, “gostosa”, “tesuda”, “putinha”, “ninfeta vadia”, o repertório é extenso e a cada estocada dentro daquela boceta úmida, uma nova obscenidade lhe escapa pelos lábios:
- Vaca safada! Gostosa... isso, abre essas pernas mais, quero meter meu pau nessa boceta molhadinha, sua putinha tesuda. – ele fala, quase gemendo, quase chorando.

          Sedenta por mais sexo, sua amante concorda com tudo, e se deixa levar pelo joguinho erótico de Pedro. A essa altura, se sentindo um lobo voraz, ele escala o corpo suado da sua parceira e penetra com cada vez mais força, até que ela solta um gemido seco e ele acelera o passo, pronto para ejacular dentro da cova irrigada e pulsante que se transformou aquela boceta suadinha e cheia de corrimentos vaginais. Ele gosta de pensar em secreção vaginal, isso o excita. É nessa hora que ele não consegue mais conter seu ímpeto e jorra num gozo violento misturado com um grito primal, sua testa franze, seus olhos se contorcem, os braços e as pernas tremem levemente, seu corpo tem leves espasmos, ele goza profundamente.

Deitado. Nu. Consciente. Mente vagando, quase ali, quase distante. Pedro passa a mão pelo pau e arranca a camisinha, dá um nó rápido, como quem golpeia os cadarços dos sapatos e a joga de lado. Olha penetrando no olhar de sua parceira e não precisa dizer nada. Seu corpo falou por si. Seu pau lhe representou. Foi profundo. Foi duro. Penetrante. Levanta da cama, ainda nu, caminha lentamente pelo quarto em direção da porta, abre lentamente, olha para o céu pipocado de estrelas, pensa no coito. Foi bom. Suspira fundo. Olha de novo para as estrelas, procura alguma constelação, não acha nenhuma e se contenta com as Três Marias. Desde criança, sempre foi cercado de mulheres, talvez por isso sua tara por bocetas. Talvez por isso, sempre chore quando lembra de sua mãe, ou sente o cheiro de pitanga. Na cama, sua parceira dorme tranquila e farta. Ele olha de novo para o céu negro, com pequenas pintas brancas, pensa consigo:


- E se eu me masturbasse agora?

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Nome de Deusa Grega

Nove bolas negras aparentes
Grudadas na pele
Feito uma coluna
São nove buracos negros

Onde meus olhos mergulham
E nadam perdidos
Meus sonhos retidos
No negro dos teus cabelos

Tão curtos
Tão justos
Tão lindos
Tão negros

Há de ventar
Amar (go)
Há de ser um dia colorido
Quando você sorrir

Parece que tem asas
Sentimento de passarinho
Quer voar
E voa, sem sair do chão, nem do ninho

Ela tem...
Um sorriso
Muito brilho
Cores que eu gosto, ou insisto.

Fotografa
Todas as luzes
Todas as cores explodido
Dentro da sua cabeça

Guarda na retina
Todas as noites
Todas as fantasias
Que vai realizar um dia

Helena,
Nome de rainha grega
Filha de Zeus, roubada por Teseu
Tida pela reputação de ser a mulher mais linda do mundo.

(desejada, Helena. Nome de Deusa Grega)


Meu Coração em Pedaços

Meu coração em pedaços
Que mal cabem
Na minha mão
Laboro em vão, tentando encontrar

O que restou
De tudo aquilo
Que era brilho
Mas agora é poeira vazia voando ao vento

Meu coração em pedaços
O que faço agora?
Onde está a minha cola?
Eu preciso me juntar de novo.



EU TENHO CORES GUARDADAS PARA VOCÊ

Eu tenho Azul
Igual ao mar que vamos mergulhar
Água quente
Nossos corpos pegando fogo

Eu tenho Verde
Que é onde vamos deitar para ver o Sol
Que é o que vamos enrolar
Até mesmo comer

Eu tenho Amarelo
Está aqui irradiando, deixa pegar, pra te dar
Esse Sol
Que está queimando em minhas mãos

Eu tenho Rosa
Te dou todas as rosas
De todas as cores
Só para te ver sorrir colorido

Eu tenho o Vermelho
Que é para te dizer do Amor
Para te pintar
E me pintar, com as cores do desejo.

Eu te desejo
Te dou cores
Faço colorir teu amanhecer
Mesmo que o céu esteja Cinza.

E quando for noite, te dou o Preto
Nosso quarto escuro
Meus dedos
Tateando seu infinito.

Clipes Gravados em Florestas.

TAME IMPALA - Expectation (do álbum "Innerspeaker")

PJ HARVEY - The Clour Of The Earth (do ábum "Let England Shake")

TEENAGE FANCLUB - It's All In My Mind (do álbum "Man-Made")

SLOWDIVE - Shine (do álbum "Blue Day")


domingo, 23 de fevereiro de 2014

O ventre seco - Raduan Nassar

O ventre seco - Raduan Nassar

1. Começo te dizendo que não tenho nada contra manipular, assim como não tenho nada contra ser manipulado; ser instrumento da vontade de terceiros é condição da existência, ninguém escapa a isso, e acho que as coisas, quando se passam desse jeito, se passam como não poderiam deixar de passar (a falta de recato não é minha, é da vida). Mas te advirto, Paula: a partir de agora, não conte mais comigo como tua ferramenta.

2. Você me deu muitas coisas, me cumulou de atenções (excedendo-se, por sinal), me ofereceu presentes, me entregou perdulariamente o teu corpo, tentou me arrastar pra lugares a que acabei não indo, e, não fosse minha feroz resistência, até pessoas das tuas relações você teria dividido comigo. Não quero discutir os motivos da tua generosidade, me limito a um formal agradecimento, recusando contudo, a todo risco, te fazer a credora que pode ainda chegar e me cobrar: "você não tem o direito de fazer isso". Fazer isso ou aquilo é problema meu, e não te devo explicações.

3. Nem foi preciso fazer um voto de pobreza, mas fiz há muito o voto de ignorância, e hoje, beirando os quarenta, estou fazendo também o meu voto de castidade. Você tem razão, Paula: não chego sequer a conservador, sou simplesmente um obscurantista. Mas deixe este obscurantista em paz, afinal, ele nunca se preocupou em fazer proselitismo.

4. E já que falo em proselitismo, devo te dizer também que não tenho nada contra esse feixe de reivindicações que você carrega, a tua questão feminista, essa outra do divórcio, e mais aquela do aborto, essas questões todas que "estão varrendo as bestas do caminho". E quando digo que não tenho nada contra, entenda bem, Paula, quero dizer simplesmente que não tenho nada a ver com tudo isso. Quer saber mais? Acho graça no ruído de jovens como você. Que tanto falam em liberdade? É preciso saber ouvir os gemidos da juventude: em geral, vocês reclamam é pela ausência de uma autoridade forte, mas eu, que nada tenho a impor, entenda isso, Paula, decididamente não quero te governar.

5. Sem suspeitar da tua precária superioridade, mais de uma vez você me atirou um desdenhoso "velho" na cara. Nunca te disse, te digo porém agora: me causa enjôo a juventude, me causa muito enjôo a tua juventude, será que preciso fazer um trejeito com a boca pra te dar a idéia clara do que estou dizendo? É bastante tranqüilo este depoimento, é sossegado, ao fazê-lo, me acredite, Paula, não me doem os cotovelos. Está muito certa aquela tua amiga frenética quando te diz que sou "incapaz de curtir gentes maravilhosas". Sou incapaz mesmo, não gosto de "gentes maravilhosas", não gosto de gente, para abreviar minhas preferências.

6. Você me levava a supor às vezes que o amor em nossos dias, a exemplo do bom senso em outros tempos, é a coisa mais bem dividida deste mundo. Aliás, só mesmo uma perfeita distribuição de afeto poderia explicar o arroubo corriqueiro a que todos se entregam com a simples menção deste sentimento. Um tanto constrangido por turvar a transparência dessa água, há muito que queria te dizer: vá que seja inquestionável, mas tenho todas as medidas cheias dos teus frívolos elogios do amor.

7. Farto também estou das tuas idéias claras e distintas a respeito de muitas outras coisas, e é só pra contrabalançar tua lucidez que confesso aqui minha confusão, mas não conclua daí qualquer sugestão de equilíbrio, menos ainda que eu esteja traindo uma suposta fé na "ordem", afinal, vai longe o tempo em que eu mesmo acreditava no propalado arranjo universal (que uns colocam no começo da história, e outros, como você, colocam no fim dela), e hoje, se ponho o olho fora da janela, além do incontido arroto, ainda fico espantado com este mundo simulado que não perde essa mania de fingir que está de pé.

8. Você pode continuar falando em nome da razão, Paula, embora até o obscurantista, que arranja (ironia!) essas idéias, saiba que a razão é muito mais humilde que certos racionalistas; você pode continuar carreando areia, pedra e tantas barras de ferro, Paula, embora qualquer criança também saiba que é sobre um chão movediço que você há de erguer teu edifício.

9. Pense uma vez sequer, Paula, na tua estranha atração por este "velho obscurantista", nos frêmitos roxos da tua carne, nessa tua obsessão pelo meu corpo, e, depois, nas prateleiras onde você arrumou com criterioso zelo todos os teus conceitos, encontre um lugar também para esta tua paixão, rejeitada na vida.

10. Sabe, Paula, ainda que sempre atenta à dobra mínima da minha língua, assim como ao movimento mais ínfimo do meu polegar, fazendo deste meu canto o ateliê do desenhista que ia no dia-a-dia emendando traço com traço, compondo, sem ser solicitada, o meu contorno, me mostrando no final o perfil de um moralista (que eu nunca soube se era agravo ou elogio), você deixou escapar a linha mestra que daria caráter ao teu rabisco. Estou falando de um risco tosco feito uma corda e que, embora invisível, é facilmente apreensível pelo lápis de alguns raros retratistas; estou falando da cicatriz sempre presente como estigma no rosto dos grandes indiferentes.

11. Não tente mais me contaminar com a tua febre, me inserir no teu contexto, me pregar tuas certezas, tuas convicções e outros remoinhos virulentos que te agitam a cabeça. Pouco se me dá, Paula, se mudam a mão de trânsito, as pedras do calçamento ou o nome da minha rua, afinal, já cheguei a um acordo perfeito com o mundo: em troca do seu barulho, dou-lhe o meu silêncio.

12. No pardieiro que é este mundo, onde a sensibilidade, como de resto a consciência, não passa de uma insuspeitada degenerescência, certos espíritos só podiam mesmo se dar muito mal na vida; mas encontrei, Paula, esquivo, o meu abrigo: coração duro, homem maduro.

13. Não me telefone, não estacione mais o carro na porta do meu prédio, não mande terceiros me revelarem que você ainda existe, e nem tudo o mais que você faz de costume, pois recorrendo a esses expedientes você só consegue me aporrinhar. Versátil como você é, desempenhe mais este papel: o de mulher resignada que sai de vez do meu caminho.

14.. Entenda, Paula: estou cansado, estou muito cansado, Paula, estou muito, mas muito, mas muito cansado, Paula. (Teu baby-doll, teus chinelos, tua escova de dentes, e outros apetrechos da tua toalete, deixei tudo numa sacola lá embaixo, é só mandar alguém pegar na portaria com o zelador.)

15. Ainda: "a velha aí do lado", a quem você se referia também como "a carcaça ressabiada", "o pacote de ossos", "a semente senil" e outras expressões exuberantes que o teu talento verbal sempre é capaz de forjar mesmo para falar das coisas mirradas da vida, nunca te revelei, Paula, te revelo agora: "aquele ventre seco" é minha mãe, faz anos que vivemos em kitchenettes separadas, ainda que ao lado uma da outra. Não seja tola, Paula, não estou te recriminando nada, sempre assisti com indiferença aos arremedos que você fazia da "bruxa velha, preparando a poção pra envenenar nossas relações". Te digo mais: você talvez tivesse razão, é provável que ela vivesse a espreitar minha porta das sombras da escadaria, é provável que ela do fundo dos corredores te olhasse "de um jeito maligno", é provável ainda que ela, matreira dentro do seu cubículo, te alcançasse todas as vezes que você saía através do olho mágico da sua porta. Mas contenha, Paula, a tua gula: você que, além de liberada e praticada, é também versada nas ciências ocultas dos tempos modernos, não vá lambuzar apressadamente o dedo na consciência das coisas; não fiz a revelação como quem te serve à mesa, não é um convite fecundo a interpretações que te faço, nem minha vida está pedindo esse desperdício. Quero antes lembrar o que minha mãe te dizia quando você, ao cruzar com ela, e "só pra tirar um sarro", perguntava maliciosamente por mim, te sugerindo eu agora a mesma prudência, se acaso amanhã teus amigos quiserem saber a meu respeito. Você pode dispensar "a ridícula solenidade da velha", mas não dispense o seu irrepreensível comedimento, responda como ela invariavelmente te respondia: "não conheço esse senhor".


 Extraído de Menina a caminho.

Castanho-Claro - poema de Charles Bukowski


um olhar castanho-claro

esse estúpido, vazio e maravilhoso
olhar castanho-claro.

darei um jeito
nele.

você não precisa mais
me enganar
com seus truques
de Cleópatra
de cinema

já se deu conta
de que se eu fosse uma calculadora
eu poderia entrar em pane
registrando
as infinitas vezes que você usou
esse olhar castanho-claro?

não que não seja o que há de melhor
esse seu olhar castanho-claro.

algum dia um filho-da-puta louco
irá matá-la

e então você gritará meu nome
e finalmente entenderá
o que já devia ter entendido

há muito
tempo.


O amor é um cão dos diabos (2007, pág. 171).

Poemas malditos, gozosos e devotos – IV (Hilda Hilst)


Doem-te as veias?
Pulsaram porque fizeste
Do barro os homens.
E agora dói-te a Razão?
Se me visses fazer
Panelas, cuias

E depois de prontas
Me visses
Aquecê-las a um ponto
A um grande fogo
Até fazê-las desaparecer

Dirias que sou demente
Louca?
Assim fizeste aos homens.
Me deste vida e morte.
Não te dói o peito?
Eu preferia
A grande noite negra
A esta luz irracional da vida.

MEDO E O MACACO

MEDO E O MACACO, poema de William S. Burroughs

Coceira irritante e o perfume da morte
No sussurrante vento sul
Cheiro de abismo e nada
O Anjo Vil dos vagabundos uiva pelo apartamento
Como um sono cheirando a doença
Sonho matutino de um macaco perdido
Nascido e sufocado por velhas fantasias
Com pétalas de rosa em frascos fechados
Medo e o macaco
Gosto amargo de fruta verde ao amanhecer
O ar lácteo e picante da brisa marinha
Carne branca denuncia
Teus jeans tão desbotados
Perna sob sombras do mar
Luz da manhã
No néon celeste de um armazém
No cheiro do vinho barato no bairro dos marujos
Na fonte soluçante do patío da polícia
Na estátua de pedra embolorada
No molequinho assobiando para vira-latas.
Vagabundos agarram suas casa imaginárias
Um trem perdido apita vago e abafado
No apartamento noite gosto d'água
Luz da manhã em carne láctea
Coceira irritante mão fantasma
Triste como a morte dos macacos
Teu pai uma estrela cadente
Osso de cristal no ar fino
Céu noturno
Dispersão e vazio.



Tradução: RGL e Maurício Arruda Mendonça

TEMPO TEMPO

O tempo me fez.
Mais maduro.
Mais humano.
Mais gente.

O tempo passou,
e continua passando.
Vai transformando tudo,
todo o tempo.

O tempo me fez.
Sorrir exagerado.
Chorar desmedido.
Sentir demasiado.

O tempo andou.
O tempo parou.
O tempo sumiu,
mas nunca voltou.

O tempo me fez.
Querer ser mais.
Sonhar bastante.
Sentir tudo em demasia.

Ahhhh, tempo.
Gosto tanto de você,
que podia cantar todo o tempo.
Até morrer, com o tempo.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

pressa

De vez em quando eu vejo
Pessoas correndo
Correndo de um lado para o outro
Se perdendo

Passam todos
Os que estão perdidos
Os que acabam de se encontrar
O tempo insiste em passar

A nossa volta tudo passa
Passam todos, passos acelerados e tortos
Uma fome intensa, quase sedenta
De sentir a vida

Sabe teu sorriso?
Para onde ele foi eu não sei
Se perdeu no meio do caminho
Parou na estrada.

Era pressa.



CÉU DA MINHA CABEÇA

No céu da minha cabeça
As nuvens estão
Formando carneirinhos
Pequenos botõezinhos soltos no ar

No céu da minha cabeça
Fazia sol, e queimava tudo
Mas agora, começou a chuva
Molhando meus pés

No chão que eu piso
Donde projeto meu salto
A lama é salgada
Há chuva, dentro da minha cabeça

Meu céu
Teu sol
Nosso sal
Tudo misturado

De Manhã
Quando amanhecer no meu horizonte
Vou lembrar do teu gracejo
Era tão bonito, imaginar

Que o céu da minha cabeça
Nunca ia desabar
Que o sol, o sal, o céu
Iam sempre existir

(dentro da minha cabeça)

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Significado de Dissimulação

s.f. Ato ou consequência de dissimular.
Atitude daquele que dissimula, finge, disfarça suas reais intenções ou propósitos: dissimulação de sentimentos. 
(Etm. do latim: dissimulatio)

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Começa bem, Termina pior.

Quando o sol sair
Quero ver você sorrir
Apagar meus desejos
No calor dos teus beijos

Quando o sol nascer
Quero crescer
Mergulhar na tua maré
Me deixar encher, esvaziar depois

Dentro de você
Quero germinar
Ser mais do que posso ser
Fazer nascer um apego

É tudo intenso
O que quero
E não quero
Meus sonhos tortos, esse momento.

É tudo torto
Meu sonho, no teu sonho, ficar acordado
Te olhar sumindo
O sol partindo atrás do teu brilho.

O teu brilho sumindo
Seu rosto
Tudo derretendo
Minhas mãos, meus dedos entre seus dedos

Todos os medos
Caíndo no chão
Como contas de um colar
Pedaços espatifados de nós dois.



"Amanheci no teu sol, teu corpo queimando grudado ao meu, os raios nos invadindo, nós também... invasão contínua, um entra e sai de prazer. É bom gozar ao sol." (TDM)

Amanhecer

Amanheci no teu sol
Você toda nua
Roçando minha pele
O teu sal na minha boca

O teu cheiro
Que trago na ponta dos meus dedos
Minha língua sedenta
Do teu suor

Teu sol
Quando ele amanhecer
Deixa queimar meu corpo
Deixa eu penetrar em seus raios

Quando amanhecer
Deixa ser
Deixa eu estar em você
Deixa eu entrar e sair

Quero falar
Ciciar palavras soltas
No calor dos teus gemidos, me desfazer
Quando amanhecer...

Eu quero estar em você
Deixa ser
Eu entrar e sair
Quando amanhecer.



sábado, 15 de fevereiro de 2014

Mulher

Quando olho seu retrato
Estático, sorrindo
Sinto um elefante pisoteando meu peito
Eu sei, é um defeito

Eu só quero sumir
Deixar minhas roupas
Meus rastros, meu cheiro
E nunca mais aparecer por estas paragens

Quero pegar um trem, um barco
Sair nadando
Cercado por tubarões
Completamente nu, ausente de tudo

Caminhar para bem longe
Me perder na estrada
Não querer achar o caminho
Dormir ao relento

É melhor sumir
Ir o mais distante que eu puder
Anular qualquer pensamento
A ter que imaginar o rosto daquela mulher.


sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

A Chama

Posto que é chama
O que baila
Diante dos meus olhos tristes
Num balé flamejante e sedutor

E gira, se contorce
Numa dança sedutora de paixão
Me chama
Para dentro de sua chama

Tenho medo
Minha mãe me disse que brincar com fogo pode ser perigoso
Não devemos acender a chama
Se não temos um sentido para isso

E se é sem sentido
Por que sentir?
Por que confundir os pensamentos
E gastar a chama?

Agora,
O silêncio
Do fogo que cessou dentro de tudo
Que não era nada, além de uma chama vazia e solitária

Queimando
Queimando
Queimando
Até cessar.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Dragões.

Soltei meus dragões
Eles voam
Eles queimam
Eles gritam

Soltei meus pulmões
Gritei sem fim
Um quase uivo
Seco

Voei, lá de cima, eu vi
Teus olhos
Tinham cores de medo
Era pavor o que eu via

Vou queimar
Tua pele morena
Com meu cuspe flamejante
Minha rajada de calor

Soltei meus dragões
Já não tenho mais medo
Consigo voar novamente
E caçar tua carcaça

Que queima solene
Na estrada vazia
Que virou sua vida
Depois que meu fogo lhe consumiu.

Delirium Tremens

Por que falo?
Por que calo?
No canto da boca
Escorre o motejo

Tudo que eu vejo
É um membro sedento
Querendo teu coito
Elear teu corpo inteiro

No vazio
Ecoar meus desejos
Gritar no teu ouvido
Todo o meu exagero

Por acaso,
O sarcasmo voltou
Não adianta esfriar
Ainda sei botar fogo em tudo

É quando me sondo
Começo a tatear meu pensamento
Revolvo as teias que você me lançou
E reapareço num estrondo

Sou ávido e voraz
Faço da tua carniça
Meu melhor alimento
E me lambuzo da tua agonia.




Entardecer

E se eu mergulhar
No oceano dos teus olhos
Verdes
Vou saber nadar?

E seu viajar até vossa mercê
Vai ser mais que gentileza
Vai ser clara tua beleza
Diante do meu ser

Vou ficar cego
Ou vou conseguir ver
Você sorrindo
Quando enfim entardecer

Vai fazer sol?
Vai chover?
No nosso primeiro entardecer, só sei
Eu vou segurar tua mão.

Tormenta

"Por quantos furacões eu vou passar, até encontrar o vento leve? Sou bom de tempestades, sou a própria tempestade e a minha tormenta. Me atormenta, tua tormenta, na minha tormenta, furacão eterno." (TDM)

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

FITA ROSA

Guardei uma fita rosa
Para laçar teu coração
Embalar tudo que sinto
Num embrulho bem bonito

Cortei metade numa tira
Uma era para você
A outra guardei
Nunca se sabe como termina o querer

Nem se vamos estar aqui
Quando o dia amanhecer
E a noite passar fria
Teu corpo, ainda quente, querendo grudar ao meu

É difícil, eu sei
Imaginar que eu posso voar
Que posso estar aqui
E, de repente, saltar no infinito

É tão bonito
Quando você sorri
Eu vejo estrelas
Sinto o céu pipocar, luzes e cometas

Lembro da tua voz
Das coisas que me dizia e que jurava serem
Agora que estou um tanto atroz
Tuas sombras me perseguem

Passou por mim, feito um furacão
Bagunçou meu senso
Hoje é apenas um plangor
Simples desencanto

Toda indiferença é amor
Toda vez que o amor fica diferente
Eu quero mais que sumir
Quero germinar flores em você

Regar, rogar, sumir, perecer
O que amarrei na fita rosa
Tinha um presente infinito
Mas você nem quis ver.

Agora é tarde, amor
Olho pro outro pedaço da fita
Ele me fita
É quando fico cego, e nem quero mais ver.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

MEDUSA

Musa
Cabelo de Deusa
Medusa
Cintilante, Silvante, Florescendo...

Teus olhinhos
Duas contas
Duas conchas
Onde quero esconder os meus

Todos os sonhos
E desejos
E suspiros
O sabor do vento batendo em teu peito

Parece sol
Cheia de brilho, intensa, radiante
Cega,
Mas faz ver tudo mais claro

Musa-Medusa
Me encanta
Me chama pro fundo dos teus olhinhos
Onde quero mergulhar (sem medo)

Teu mar
Ele é profundo?
Será que vou me afogar
Me ensina a nadar?

Teu colo
O brilho dos teus olhos
Tímidos, me encanta
Sinto que estou encalistrado (ao teu lado)

Minhas palavras são como suspiros
Quero contar tudo baixinho
Quero murmurar no teu ouvido
Que você é Medusa.

(e agora, que virei estátua de pedra, fico aqui só te olhando.)