palavras... delírios... vômitos... buracos negros... umbigos... pélvis lisa... tudo que interessa!
sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014
terça-feira, 25 de fevereiro de 2014
O COITO
Os corpos estavam grudados um ao outro. O suor impelia por toda a pele,
um frescor confuso, uma mistura de tudo, todo o tipo de energia. Fazia muito
calor naquela noite, a lua cheia se formava e desaparecia por trás de nuvens
volumosas que cobriam o céu da cidade. Encovado em seus pensamento, lembrava do que ela havia lhe dito – que
seu olhar enquanto metia na sua boceta molhada era ameaçador, brutal, algo
selvagem. E que ela gostava disso. Gostava de se sentir dominada, mas também se
interessava por dominar algumas vezes. Esse tipo de pensamento sempre era
recorrente para ele. Imagens absurdas se formavam diante de seus olhos, imaginava
bocetas. Das mais diversas formas e cores e peles e texturas e fetiches
alucinados que não teriam sentido em outra mente, que não a mente pervertida de
Pedro Leão, nosso herói selvagem. Elas piscavam diante dos teus olhos, como letreiros imaginários com luzes piscando sem parar. Em big close.
Sentado a beira da cama, o corpo curvo e nu, Pedro acende um cigarro a
contragosto de sua parceira que, ainda sedenta por sua rôla, clama por mais
sexo, mais metidas fortes e unhas nas costas. Calma garota, isso ele vai dar
logo mais, daqui a pouco. O cigarro é apenas uma forma de relaxar seus membros, para depois
enrijece-los novamente. É um jogo, e todo jogo precisa de tática, a tática
nesse caso, é o cigarro depois do coito para secar o suor do corpo. Nesse
momento, outro pensamento repentino invade a mente de Pedro. É um frescor
infantil, algo que lhe faz voltar súbito 30 anos ou mais, ele se sente assim
toda vez que sente o cheiro de pitanga. E de frente para seu prédio, há dois
pés de pitangas que nesse exato momento estão abarrotados de frutinhos maduros,
exalando um cheiro doce e saudoso. Ele fantasia que tem de novo oito, sete anos.
Chora. Chora copiosamente, sem saber o motivo daquilo, enquanto traga
fortemente seu Marlboro Red, jogando a fumaça em círculos nervosos em direção
ao único feixo de luz que penetra o quarto escuro, vindo de um poste
posicionado do outro lado da rua. Na cama, sua parceira geme leve, sussurra
algo, chama seu nome. Ele está distante. Não houve, ou não quer ouvir, se faz
de surdo e continua remoendo suas lembranças. Se enrola na sua própria teia, se
sente perdido, respira fundo, olha para o corpo nu deitado na cama, saliva.
Mexe no pau por entre a cueca de algodão, mexe nos testículos, na glande, busca
entumecer o seu membro, antes de cair de vez em cima daquele corpo nu e
penetra-lo com voracidade. Antes disso, caminha até seu mac, toca no touch pad
e desliza os dedos à procura de alguma canção que lhe agrade, acha alguns
discos do Tindersticks e acha pertinente para aquele momento pré-coito. Coloca
uma faixa, “No More Affairs”, se convence de que ela pode ser o prenúncio para
algo, coisa que ele nem sabe o que é, mas que lá no fundo já sente, sem saber.
Volta os olhos pelo quarto, em rodopio lento, frame a frame. Até estacionar em
direção da cama, em cima dela, sua parceira mexe a boceta com a ponta dos
dedos, abrindo e fechando, abrindo e fechando. Pedro suspira. Um suspiro leve e
seco, pensa na sua mãe, se emociona. O pau dá sinais de querer ficar alterado,
ele se contenta com isso, pensa em algo podre e sujo, tenta se concentrar
naquela boceta lasciva se mexendo na sua frente. Grita. Um grito profundo e
aberto, quase um uivo e mergulha com ardor naquele corpo nu, sua pele queima,
borbulha em suor e tesão. Ele nem pensa em preliminares, quer apenas achar o
buraco daquela boceta e meter nele, com força, com bastante força. Pensa que
vai gozar assim que meter, então retém a glande do seu pau perto da vulva, um
pouco abaixo do clitóris, excitando sua parceira, que geme leve. Vai penetrando
devagar, devagar, até enfiar o pau por inteiro na caverna úmida e macia da
xoxota excitada de sua amante. Os movimentos começam fortes, mas tranquilos,
aos poucos vai acelerando o ritmo, falando obscenidades ao pé da orelha da orelha dela, chamando-a de “vadia”, “puta safada”, “minha piranha”, “gostosa”,
“tesuda”, “putinha”, “ninfeta vadia”, o repertório é extenso e a cada estocada
dentro daquela boceta úmida, uma nova obscenidade lhe escapa pelos lábios:
- Vaca safada! Gostosa... isso, abre essas pernas mais, quero meter meu
pau nessa boceta molhadinha, sua putinha tesuda. – ele fala, quase gemendo,
quase chorando.
Sedenta por mais sexo, sua amante concorda com tudo, e se deixa levar pelo joguinho erótico de Pedro. A essa altura, se sentindo um lobo voraz, ele escala o corpo suado da sua parceira e penetra com cada vez mais força, até que ela solta um gemido seco e ele acelera o passo, pronto para ejacular dentro da cova irrigada e pulsante que se transformou aquela boceta suadinha e cheia de corrimentos vaginais. Ele gosta de pensar em secreção vaginal, isso o excita. É nessa hora que ele não consegue mais conter seu ímpeto e jorra num gozo violento misturado com um grito primal, sua testa franze, seus olhos se contorcem, os braços e as pernas tremem levemente, seu corpo tem leves espasmos, ele goza profundamente.
Deitado. Nu. Consciente. Mente vagando, quase ali, quase distante. Pedro
passa a mão pelo pau e arranca a camisinha, dá um nó rápido, como quem golpeia
os cadarços dos sapatos e a joga de lado. Olha penetrando no olhar de sua
parceira e não precisa dizer nada. Seu corpo falou por si. Seu pau lhe
representou. Foi profundo. Foi duro. Penetrante. Levanta da cama, ainda nu,
caminha lentamente pelo quarto em direção da porta, abre lentamente, olha para
o céu pipocado de estrelas, pensa no coito. Foi bom. Suspira fundo. Olha de
novo para as estrelas, procura alguma constelação, não acha nenhuma e se
contenta com as Três Marias. Desde criança, sempre foi cercado de mulheres,
talvez por isso sua tara por bocetas. Talvez por isso, sempre chore quando
lembra de sua mãe, ou sente o cheiro de pitanga. Na cama, sua parceira dorme
tranquila e farta. Ele olha de novo para o céu negro, com pequenas pintas
brancas, pensa consigo:
- E se eu me masturbasse agora?
segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014
Nome de Deusa Grega
Nove bolas negras aparentes
Grudadas na pele
Feito uma coluna
São nove buracos negros
Onde meus olhos mergulham
E nadam perdidos
Meus sonhos retidos
No negro dos teus cabelos
Tão curtos
Tão justos
Tão lindos
Tão negros
Há de ventar
Amar (go)
Há de ser um dia colorido
Quando você sorrir
Parece que tem asas
Sentimento de passarinho
Quer voar
E voa, sem sair do chão, nem do ninho
Ela tem...
Um sorriso
Muito brilho
Cores que eu gosto, ou insisto.
Fotografa
Todas as luzes
Todas as cores explodido
Dentro da sua cabeça
Guarda na retina
Todas as noites
Todas as fantasias
Que vai realizar um dia
Helena,
Nome de rainha grega
Filha de Zeus, roubada por Teseu
Tida pela reputação de ser a mulher mais linda do mundo.
(desejada, Helena. Nome de Deusa Grega)
Grudadas na pele
Feito uma coluna
São nove buracos negros
Onde meus olhos mergulham
E nadam perdidos
Meus sonhos retidos
No negro dos teus cabelos
Tão curtos
Tão justos
Tão lindos
Tão negros
Há de ventar
Amar (go)
Há de ser um dia colorido
Quando você sorrir
Parece que tem asas
Sentimento de passarinho
Quer voar
E voa, sem sair do chão, nem do ninho
Ela tem...
Um sorriso
Muito brilho
Cores que eu gosto, ou insisto.
Fotografa
Todas as luzes
Todas as cores explodido
Dentro da sua cabeça
Guarda na retina
Todas as noites
Todas as fantasias
Que vai realizar um dia
Helena,
Nome de rainha grega
Filha de Zeus, roubada por Teseu
Tida pela reputação de ser a mulher mais linda do mundo.
(desejada, Helena. Nome de Deusa Grega)
Meu Coração em Pedaços
Meu coração em pedaços
Que mal cabem
Na minha mão
Laboro em vão, tentando encontrar
O que restou
De tudo aquilo
Que era brilho
Mas agora é poeira vazia voando ao vento
Meu coração em pedaços
O que faço agora?
Onde está a minha cola?
Eu preciso me juntar de novo.
Que mal cabem
Na minha mão
Laboro em vão, tentando encontrar
O que restou
De tudo aquilo
Que era brilho
Mas agora é poeira vazia voando ao vento
Meu coração em pedaços
O que faço agora?
Onde está a minha cola?
Eu preciso me juntar de novo.
EU TENHO CORES GUARDADAS PARA VOCÊ
Eu tenho Azul
Igual ao mar que vamos mergulhar
Água quente
Nossos corpos pegando fogo
Eu tenho Verde
Que é onde vamos deitar para ver o Sol
Que é o que vamos enrolar
Até mesmo comer
Eu tenho Amarelo
Está aqui irradiando, deixa pegar, pra te dar
Esse Sol
Que está queimando em minhas mãos
Eu tenho Rosa
Te dou todas as rosas
De todas as cores
Só para te ver sorrir colorido
Eu tenho o Vermelho
Que é para te dizer do Amor
Para te pintar
E me pintar, com as cores do desejo.
Eu te desejo
Te dou cores
Faço colorir teu amanhecer
Mesmo que o céu esteja Cinza.
E quando for noite, te dou o Preto
Nosso quarto escuro
Meus dedos
Tateando seu infinito.
Igual ao mar que vamos mergulhar
Água quente
Nossos corpos pegando fogo
Eu tenho Verde
Que é onde vamos deitar para ver o Sol
Que é o que vamos enrolar
Até mesmo comer
Eu tenho Amarelo
Está aqui irradiando, deixa pegar, pra te dar
Esse Sol
Que está queimando em minhas mãos
Eu tenho Rosa
Te dou todas as rosas
De todas as cores
Só para te ver sorrir colorido
Eu tenho o Vermelho
Que é para te dizer do Amor
Para te pintar
E me pintar, com as cores do desejo.
Eu te desejo
Te dou cores
Faço colorir teu amanhecer
Mesmo que o céu esteja Cinza.
E quando for noite, te dou o Preto
Nosso quarto escuro
Meus dedos
Tateando seu infinito.
Clipes Gravados em Florestas.
domingo, 23 de fevereiro de 2014
O ventre seco - Raduan Nassar
O ventre seco - Raduan Nassar
1. Começo te dizendo que não tenho nada contra manipular, assim como não tenho nada contra ser manipulado; ser instrumento da vontade de terceiros é condição da existência, ninguém escapa a isso, e acho que as coisas, quando se passam desse jeito, se passam como não poderiam deixar de passar (a falta de recato não é minha, é da vida). Mas te advirto, Paula: a partir de agora, não conte mais comigo como tua ferramenta.
2. Você me deu muitas coisas, me cumulou de atenções (excedendo-se, por sinal), me ofereceu presentes, me entregou perdulariamente o teu corpo, tentou me arrastar pra lugares a que acabei não indo, e, não fosse minha feroz resistência, até pessoas das tuas relações você teria dividido comigo. Não quero discutir os motivos da tua generosidade, me limito a um formal agradecimento, recusando contudo, a todo risco, te fazer a credora que pode ainda chegar e me cobrar: "você não tem o direito de fazer isso". Fazer isso ou aquilo é problema meu, e não te devo explicações.
3. Nem foi preciso fazer um voto de pobreza, mas fiz há muito o voto de ignorância, e hoje, beirando os quarenta, estou fazendo também o meu voto de castidade. Você tem razão, Paula: não chego sequer a conservador, sou simplesmente um obscurantista. Mas deixe este obscurantista em paz, afinal, ele nunca se preocupou em fazer proselitismo.
4. E já que falo em proselitismo, devo te dizer também que não tenho nada contra esse feixe de reivindicações que você carrega, a tua questão feminista, essa outra do divórcio, e mais aquela do aborto, essas questões todas que "estão varrendo as bestas do caminho". E quando digo que não tenho nada contra, entenda bem, Paula, quero dizer simplesmente que não tenho nada a ver com tudo isso. Quer saber mais? Acho graça no ruído de jovens como você. Que tanto falam em liberdade? É preciso saber ouvir os gemidos da juventude: em geral, vocês reclamam é pela ausência de uma autoridade forte, mas eu, que nada tenho a impor, entenda isso, Paula, decididamente não quero te governar.
5. Sem suspeitar da tua precária superioridade, mais de uma vez você me atirou um desdenhoso "velho" na cara. Nunca te disse, te digo porém agora: me causa enjôo a juventude, me causa muito enjôo a tua juventude, será que preciso fazer um trejeito com a boca pra te dar a idéia clara do que estou dizendo? É bastante tranqüilo este depoimento, é sossegado, ao fazê-lo, me acredite, Paula, não me doem os cotovelos. Está muito certa aquela tua amiga frenética quando te diz que sou "incapaz de curtir gentes maravilhosas". Sou incapaz mesmo, não gosto de "gentes maravilhosas", não gosto de gente, para abreviar minhas preferências.
6. Você me levava a supor às vezes que o amor em nossos dias, a exemplo do bom senso em outros tempos, é a coisa mais bem dividida deste mundo. Aliás, só mesmo uma perfeita distribuição de afeto poderia explicar o arroubo corriqueiro a que todos se entregam com a simples menção deste sentimento. Um tanto constrangido por turvar a transparência dessa água, há muito que queria te dizer: vá que seja inquestionável, mas tenho todas as medidas cheias dos teus frívolos elogios do amor.
7. Farto também estou das tuas idéias claras e distintas a respeito de muitas outras coisas, e é só pra contrabalançar tua lucidez que confesso aqui minha confusão, mas não conclua daí qualquer sugestão de equilíbrio, menos ainda que eu esteja traindo uma suposta fé na "ordem", afinal, vai longe o tempo em que eu mesmo acreditava no propalado arranjo universal (que uns colocam no começo da história, e outros, como você, colocam no fim dela), e hoje, se ponho o olho fora da janela, além do incontido arroto, ainda fico espantado com este mundo simulado que não perde essa mania de fingir que está de pé.
8. Você pode continuar falando em nome da razão, Paula, embora até o obscurantista, que arranja (ironia!) essas idéias, saiba que a razão é muito mais humilde que certos racionalistas; você pode continuar carreando areia, pedra e tantas barras de ferro, Paula, embora qualquer criança também saiba que é sobre um chão movediço que você há de erguer teu edifício.
9. Pense uma vez sequer, Paula, na tua estranha atração por este "velho obscurantista", nos frêmitos roxos da tua carne, nessa tua obsessão pelo meu corpo, e, depois, nas prateleiras onde você arrumou com criterioso zelo todos os teus conceitos, encontre um lugar também para esta tua paixão, rejeitada na vida.
10. Sabe, Paula, ainda que sempre atenta à dobra mínima da minha língua, assim como ao movimento mais ínfimo do meu polegar, fazendo deste meu canto o ateliê do desenhista que ia no dia-a-dia emendando traço com traço, compondo, sem ser solicitada, o meu contorno, me mostrando no final o perfil de um moralista (que eu nunca soube se era agravo ou elogio), você deixou escapar a linha mestra que daria caráter ao teu rabisco. Estou falando de um risco tosco feito uma corda e que, embora invisível, é facilmente apreensível pelo lápis de alguns raros retratistas; estou falando da cicatriz sempre presente como estigma no rosto dos grandes indiferentes.
11. Não tente mais me contaminar com a tua febre, me inserir no teu contexto, me pregar tuas certezas, tuas convicções e outros remoinhos virulentos que te agitam a cabeça. Pouco se me dá, Paula, se mudam a mão de trânsito, as pedras do calçamento ou o nome da minha rua, afinal, já cheguei a um acordo perfeito com o mundo: em troca do seu barulho, dou-lhe o meu silêncio.
12. No pardieiro que é este mundo, onde a sensibilidade, como de resto a consciência, não passa de uma insuspeitada degenerescência, certos espíritos só podiam mesmo se dar muito mal na vida; mas encontrei, Paula, esquivo, o meu abrigo: coração duro, homem maduro.
13. Não me telefone, não estacione mais o carro na porta do meu prédio, não mande terceiros me revelarem que você ainda existe, e nem tudo o mais que você faz de costume, pois recorrendo a esses expedientes você só consegue me aporrinhar. Versátil como você é, desempenhe mais este papel: o de mulher resignada que sai de vez do meu caminho.
14.. Entenda, Paula: estou cansado, estou muito cansado, Paula, estou muito, mas muito, mas muito cansado, Paula. (Teu baby-doll, teus chinelos, tua escova de dentes, e outros apetrechos da tua toalete, deixei tudo numa sacola lá embaixo, é só mandar alguém pegar na portaria com o zelador.)
15. Ainda: "a velha aí do lado", a quem você se referia também como "a carcaça ressabiada", "o pacote de ossos", "a semente senil" e outras expressões exuberantes que o teu talento verbal sempre é capaz de forjar mesmo para falar das coisas mirradas da vida, nunca te revelei, Paula, te revelo agora: "aquele ventre seco" é minha mãe, faz anos que vivemos em kitchenettes separadas, ainda que ao lado uma da outra. Não seja tola, Paula, não estou te recriminando nada, sempre assisti com indiferença aos arremedos que você fazia da "bruxa velha, preparando a poção pra envenenar nossas relações". Te digo mais: você talvez tivesse razão, é provável que ela vivesse a espreitar minha porta das sombras da escadaria, é provável que ela do fundo dos corredores te olhasse "de um jeito maligno", é provável ainda que ela, matreira dentro do seu cubículo, te alcançasse todas as vezes que você saía através do olho mágico da sua porta. Mas contenha, Paula, a tua gula: você que, além de liberada e praticada, é também versada nas ciências ocultas dos tempos modernos, não vá lambuzar apressadamente o dedo na consciência das coisas; não fiz a revelação como quem te serve à mesa, não é um convite fecundo a interpretações que te faço, nem minha vida está pedindo esse desperdício. Quero antes lembrar o que minha mãe te dizia quando você, ao cruzar com ela, e "só pra tirar um sarro", perguntava maliciosamente por mim, te sugerindo eu agora a mesma prudência, se acaso amanhã teus amigos quiserem saber a meu respeito. Você pode dispensar "a ridícula solenidade da velha", mas não dispense o seu irrepreensível comedimento, responda como ela invariavelmente te respondia: "não conheço esse senhor".
2. Você me deu muitas coisas, me cumulou de atenções (excedendo-se, por sinal), me ofereceu presentes, me entregou perdulariamente o teu corpo, tentou me arrastar pra lugares a que acabei não indo, e, não fosse minha feroz resistência, até pessoas das tuas relações você teria dividido comigo. Não quero discutir os motivos da tua generosidade, me limito a um formal agradecimento, recusando contudo, a todo risco, te fazer a credora que pode ainda chegar e me cobrar: "você não tem o direito de fazer isso". Fazer isso ou aquilo é problema meu, e não te devo explicações.
3. Nem foi preciso fazer um voto de pobreza, mas fiz há muito o voto de ignorância, e hoje, beirando os quarenta, estou fazendo também o meu voto de castidade. Você tem razão, Paula: não chego sequer a conservador, sou simplesmente um obscurantista. Mas deixe este obscurantista em paz, afinal, ele nunca se preocupou em fazer proselitismo.
4. E já que falo em proselitismo, devo te dizer também que não tenho nada contra esse feixe de reivindicações que você carrega, a tua questão feminista, essa outra do divórcio, e mais aquela do aborto, essas questões todas que "estão varrendo as bestas do caminho". E quando digo que não tenho nada contra, entenda bem, Paula, quero dizer simplesmente que não tenho nada a ver com tudo isso. Quer saber mais? Acho graça no ruído de jovens como você. Que tanto falam em liberdade? É preciso saber ouvir os gemidos da juventude: em geral, vocês reclamam é pela ausência de uma autoridade forte, mas eu, que nada tenho a impor, entenda isso, Paula, decididamente não quero te governar.
5. Sem suspeitar da tua precária superioridade, mais de uma vez você me atirou um desdenhoso "velho" na cara. Nunca te disse, te digo porém agora: me causa enjôo a juventude, me causa muito enjôo a tua juventude, será que preciso fazer um trejeito com a boca pra te dar a idéia clara do que estou dizendo? É bastante tranqüilo este depoimento, é sossegado, ao fazê-lo, me acredite, Paula, não me doem os cotovelos. Está muito certa aquela tua amiga frenética quando te diz que sou "incapaz de curtir gentes maravilhosas". Sou incapaz mesmo, não gosto de "gentes maravilhosas", não gosto de gente, para abreviar minhas preferências.
6. Você me levava a supor às vezes que o amor em nossos dias, a exemplo do bom senso em outros tempos, é a coisa mais bem dividida deste mundo. Aliás, só mesmo uma perfeita distribuição de afeto poderia explicar o arroubo corriqueiro a que todos se entregam com a simples menção deste sentimento. Um tanto constrangido por turvar a transparência dessa água, há muito que queria te dizer: vá que seja inquestionável, mas tenho todas as medidas cheias dos teus frívolos elogios do amor.
7. Farto também estou das tuas idéias claras e distintas a respeito de muitas outras coisas, e é só pra contrabalançar tua lucidez que confesso aqui minha confusão, mas não conclua daí qualquer sugestão de equilíbrio, menos ainda que eu esteja traindo uma suposta fé na "ordem", afinal, vai longe o tempo em que eu mesmo acreditava no propalado arranjo universal (que uns colocam no começo da história, e outros, como você, colocam no fim dela), e hoje, se ponho o olho fora da janela, além do incontido arroto, ainda fico espantado com este mundo simulado que não perde essa mania de fingir que está de pé.
8. Você pode continuar falando em nome da razão, Paula, embora até o obscurantista, que arranja (ironia!) essas idéias, saiba que a razão é muito mais humilde que certos racionalistas; você pode continuar carreando areia, pedra e tantas barras de ferro, Paula, embora qualquer criança também saiba que é sobre um chão movediço que você há de erguer teu edifício.
9. Pense uma vez sequer, Paula, na tua estranha atração por este "velho obscurantista", nos frêmitos roxos da tua carne, nessa tua obsessão pelo meu corpo, e, depois, nas prateleiras onde você arrumou com criterioso zelo todos os teus conceitos, encontre um lugar também para esta tua paixão, rejeitada na vida.
10. Sabe, Paula, ainda que sempre atenta à dobra mínima da minha língua, assim como ao movimento mais ínfimo do meu polegar, fazendo deste meu canto o ateliê do desenhista que ia no dia-a-dia emendando traço com traço, compondo, sem ser solicitada, o meu contorno, me mostrando no final o perfil de um moralista (que eu nunca soube se era agravo ou elogio), você deixou escapar a linha mestra que daria caráter ao teu rabisco. Estou falando de um risco tosco feito uma corda e que, embora invisível, é facilmente apreensível pelo lápis de alguns raros retratistas; estou falando da cicatriz sempre presente como estigma no rosto dos grandes indiferentes.
11. Não tente mais me contaminar com a tua febre, me inserir no teu contexto, me pregar tuas certezas, tuas convicções e outros remoinhos virulentos que te agitam a cabeça. Pouco se me dá, Paula, se mudam a mão de trânsito, as pedras do calçamento ou o nome da minha rua, afinal, já cheguei a um acordo perfeito com o mundo: em troca do seu barulho, dou-lhe o meu silêncio.
12. No pardieiro que é este mundo, onde a sensibilidade, como de resto a consciência, não passa de uma insuspeitada degenerescência, certos espíritos só podiam mesmo se dar muito mal na vida; mas encontrei, Paula, esquivo, o meu abrigo: coração duro, homem maduro.
13. Não me telefone, não estacione mais o carro na porta do meu prédio, não mande terceiros me revelarem que você ainda existe, e nem tudo o mais que você faz de costume, pois recorrendo a esses expedientes você só consegue me aporrinhar. Versátil como você é, desempenhe mais este papel: o de mulher resignada que sai de vez do meu caminho.
14.. Entenda, Paula: estou cansado, estou muito cansado, Paula, estou muito, mas muito, mas muito cansado, Paula. (Teu baby-doll, teus chinelos, tua escova de dentes, e outros apetrechos da tua toalete, deixei tudo numa sacola lá embaixo, é só mandar alguém pegar na portaria com o zelador.)
15. Ainda: "a velha aí do lado", a quem você se referia também como "a carcaça ressabiada", "o pacote de ossos", "a semente senil" e outras expressões exuberantes que o teu talento verbal sempre é capaz de forjar mesmo para falar das coisas mirradas da vida, nunca te revelei, Paula, te revelo agora: "aquele ventre seco" é minha mãe, faz anos que vivemos em kitchenettes separadas, ainda que ao lado uma da outra. Não seja tola, Paula, não estou te recriminando nada, sempre assisti com indiferença aos arremedos que você fazia da "bruxa velha, preparando a poção pra envenenar nossas relações". Te digo mais: você talvez tivesse razão, é provável que ela vivesse a espreitar minha porta das sombras da escadaria, é provável que ela do fundo dos corredores te olhasse "de um jeito maligno", é provável ainda que ela, matreira dentro do seu cubículo, te alcançasse todas as vezes que você saía através do olho mágico da sua porta. Mas contenha, Paula, a tua gula: você que, além de liberada e praticada, é também versada nas ciências ocultas dos tempos modernos, não vá lambuzar apressadamente o dedo na consciência das coisas; não fiz a revelação como quem te serve à mesa, não é um convite fecundo a interpretações que te faço, nem minha vida está pedindo esse desperdício. Quero antes lembrar o que minha mãe te dizia quando você, ao cruzar com ela, e "só pra tirar um sarro", perguntava maliciosamente por mim, te sugerindo eu agora a mesma prudência, se acaso amanhã teus amigos quiserem saber a meu respeito. Você pode dispensar "a ridícula solenidade da velha", mas não dispense o seu irrepreensível comedimento, responda como ela invariavelmente te respondia: "não conheço esse senhor".
Extraído de Menina a caminho.
Castanho-Claro - poema de Charles Bukowski
um olhar castanho-claro
esse estúpido, vazio e maravilhoso
olhar castanho-claro.
darei um jeito
nele.
você não precisa mais
me enganar
com seus truques
de Cleópatra
de cinema
já se deu conta
de que se eu fosse uma calculadora
eu poderia entrar em pane
registrando
as infinitas vezes que você usou
esse olhar castanho-claro?
não que não seja o que há de melhor
esse seu olhar castanho-claro.
algum dia um filho-da-puta louco
irá matá-la
e então você gritará meu nome
e finalmente entenderá
o que já devia ter entendido
há muito
tempo.
O amor é um cão dos diabos (2007, pág. 171).
esse estúpido, vazio e maravilhoso
olhar castanho-claro.
darei um jeito
nele.
você não precisa mais
me enganar
com seus truques
de Cleópatra
de cinema
já se deu conta
de que se eu fosse uma calculadora
eu poderia entrar em pane
registrando
as infinitas vezes que você usou
esse olhar castanho-claro?
não que não seja o que há de melhor
esse seu olhar castanho-claro.
algum dia um filho-da-puta louco
irá matá-la
e então você gritará meu nome
e finalmente entenderá
o que já devia ter entendido
há muito
tempo.
O amor é um cão dos diabos (2007, pág. 171).
Poemas malditos, gozosos e devotos – IV (Hilda Hilst)
Doem-te as veias?
Pulsaram porque fizeste
Do barro os homens.
E agora dói-te a Razão?
Se me visses fazer
Panelas, cuias
E depois de prontas
Me visses
Aquecê-las a um ponto
A um grande fogo
Até fazê-las desaparecer
Dirias que sou demente
Louca?
Assim fizeste aos homens.
Pulsaram porque fizeste
Do barro os homens.
E agora dói-te a Razão?
Se me visses fazer
Panelas, cuias
E depois de prontas
Me visses
Aquecê-las a um ponto
A um grande fogo
Até fazê-las desaparecer
Dirias que sou demente
Louca?
Assim fizeste aos homens.
Me deste vida e morte.
Não te dói o peito?
Eu preferia
A grande noite negra
A esta luz irracional da vida.
Não te dói o peito?
Eu preferia
A grande noite negra
A esta luz irracional da vida.
MEDO E O MACACO
MEDO E O MACACO, poema de William S. Burroughs
Coceira irritante e o perfume da morte
No sussurrante vento sul
Cheiro de abismo e nada
O Anjo Vil dos vagabundos uiva pelo apartamento
Como um sono cheirando a doença
Sonho matutino de um macaco perdido
Nascido e sufocado por velhas fantasias
Com pétalas de rosa em frascos fechados
Medo e o macaco
Gosto amargo de fruta verde ao amanhecer
O ar lácteo e picante da brisa marinha
Carne branca denuncia
Teus jeans tão desbotados
Perna sob sombras do mar
Luz da manhã
No néon celeste de um armazém
No cheiro do vinho barato no bairro dos marujos
Na fonte soluçante do patío da polícia
Na estátua de pedra embolorada
No molequinho assobiando para vira-latas.
Vagabundos agarram suas casa imaginárias
Um trem perdido apita vago e abafado
No apartamento noite gosto d'água
Luz da manhã em carne láctea
Coceira irritante mão fantasma
Triste como a morte dos macacos
Teu pai uma estrela cadente
Osso de cristal no ar fino
Céu noturno
Dispersão e vazio.
Tradução: RGL e Maurício Arruda Mendonça
No sussurrante vento sul
Cheiro de abismo e nada
O Anjo Vil dos vagabundos uiva pelo apartamento
Como um sono cheirando a doença
Sonho matutino de um macaco perdido
Nascido e sufocado por velhas fantasias
Com pétalas de rosa em frascos fechados
Medo e o macaco
Gosto amargo de fruta verde ao amanhecer
O ar lácteo e picante da brisa marinha
Carne branca denuncia
Teus jeans tão desbotados
Perna sob sombras do mar
Luz da manhã
No néon celeste de um armazém
No cheiro do vinho barato no bairro dos marujos
Na fonte soluçante do patío da polícia
Na estátua de pedra embolorada
No molequinho assobiando para vira-latas.
Vagabundos agarram suas casa imaginárias
Um trem perdido apita vago e abafado
No apartamento noite gosto d'água
Luz da manhã em carne láctea
Coceira irritante mão fantasma
Triste como a morte dos macacos
Teu pai uma estrela cadente
Osso de cristal no ar fino
Céu noturno
Dispersão e vazio.
Tradução: RGL e Maurício Arruda Mendonça
TEMPO TEMPO
O tempo me fez.
Mais maduro.
Mais humano.
Mais gente.
O tempo passou,
e continua passando.
Vai transformando tudo,
todo o tempo.
O tempo me fez.
Sorrir exagerado.
Chorar desmedido.
Sentir demasiado.
O tempo andou.
O tempo parou.
O tempo sumiu,
mas nunca voltou.
O tempo me fez.
Querer ser mais.
Sonhar bastante.
Sentir tudo em demasia.
Ahhhh, tempo.
Gosto tanto de você,
que podia cantar todo o tempo.
Até morrer, com o tempo.
Mais maduro.
Mais humano.
Mais gente.
O tempo passou,
e continua passando.
Vai transformando tudo,
todo o tempo.
O tempo me fez.
Sorrir exagerado.
Chorar desmedido.
Sentir demasiado.
O tempo andou.
O tempo parou.
O tempo sumiu,
mas nunca voltou.
O tempo me fez.
Querer ser mais.
Sonhar bastante.
Sentir tudo em demasia.
Ahhhh, tempo.
Gosto tanto de você,
que podia cantar todo o tempo.
Até morrer, com o tempo.
quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014
pressa
De vez em quando eu vejo
Pessoas correndo
Correndo de um lado para o outro
Se perdendo
Passam todos
Os que estão perdidos
Os que acabam de se encontrar
O tempo insiste em passar
A nossa volta tudo passa
Passam todos, passos acelerados e tortos
Uma fome intensa, quase sedenta
De sentir a vida
Sabe teu sorriso?
Para onde ele foi eu não sei
Se perdeu no meio do caminho
Parou na estrada.
Era pressa.
Pessoas correndo
Correndo de um lado para o outro
Se perdendo
Passam todos
Os que estão perdidos
Os que acabam de se encontrar
O tempo insiste em passar
A nossa volta tudo passa
Passam todos, passos acelerados e tortos
Uma fome intensa, quase sedenta
De sentir a vida
Sabe teu sorriso?
Para onde ele foi eu não sei
Se perdeu no meio do caminho
Parou na estrada.
Era pressa.
CÉU DA MINHA CABEÇA
No céu da minha cabeça
As nuvens estão
Formando carneirinhos
Pequenos botõezinhos soltos no ar
No céu da minha cabeça
Fazia sol, e queimava tudo
Mas agora, começou a chuva
Molhando meus pés
No chão que eu piso
Donde projeto meu salto
A lama é salgada
Há chuva, dentro da minha cabeça
Meu céu
Teu sol
Nosso sal
Tudo misturado
De Manhã
Quando amanhecer no meu horizonte
Vou lembrar do teu gracejo
Era tão bonito, imaginar
Que o céu da minha cabeça
Nunca ia desabar
Que o sol, o sal, o céu
Iam sempre existir
(dentro da minha cabeça)
As nuvens estão
Formando carneirinhos
Pequenos botõezinhos soltos no ar
No céu da minha cabeça
Fazia sol, e queimava tudo
Mas agora, começou a chuva
Molhando meus pés
No chão que eu piso
Donde projeto meu salto
A lama é salgada
Há chuva, dentro da minha cabeça
Meu céu
Teu sol
Nosso sal
Tudo misturado
De Manhã
Quando amanhecer no meu horizonte
Vou lembrar do teu gracejo
Era tão bonito, imaginar
Que o céu da minha cabeça
Nunca ia desabar
Que o sol, o sal, o céu
Iam sempre existir
(dentro da minha cabeça)
quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014
segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014
Começa bem, Termina pior.
Quando o sol sair
Quero ver você sorrir
Apagar meus desejos
No calor dos teus beijos
Quando o sol nascer
Quero crescer
Mergulhar na tua maré
Me deixar encher, esvaziar depois
Dentro de você
Quero germinar
Ser mais do que posso ser
Fazer nascer um apego
É tudo intenso
O que quero
E não quero
Meus sonhos tortos, esse momento.
É tudo torto
Meu sonho, no teu sonho, ficar acordado
Te olhar sumindo
O sol partindo atrás do teu brilho.
O teu brilho sumindo
Seu rosto
Tudo derretendo
Minhas mãos, meus dedos entre seus dedos
Todos os medos
Caíndo no chão
Como contas de um colar
Pedaços espatifados de nós dois.
Quero ver você sorrir
Apagar meus desejos
No calor dos teus beijos
Quando o sol nascer
Quero crescer
Mergulhar na tua maré
Me deixar encher, esvaziar depois
Dentro de você
Quero germinar
Ser mais do que posso ser
Fazer nascer um apego
É tudo intenso
O que quero
E não quero
Meus sonhos tortos, esse momento.
É tudo torto
Meu sonho, no teu sonho, ficar acordado
Te olhar sumindo
O sol partindo atrás do teu brilho.
O teu brilho sumindo
Seu rosto
Tudo derretendo
Minhas mãos, meus dedos entre seus dedos
Todos os medos
Caíndo no chão
Como contas de um colar
Pedaços espatifados de nós dois.
Amanhecer
Amanheci no teu sol
Você toda nua
Roçando minha pele
O teu sal na minha boca
O teu cheiro
Que trago na ponta dos meus dedos
Minha língua sedenta
Do teu suor
Teu sol
Quando ele amanhecer
Deixa queimar meu corpo
Deixa eu penetrar em seus raios
Quando amanhecer
Deixa ser
Deixa eu estar em você
Deixa eu entrar e sair
Quero falar
Ciciar palavras soltas
No calor dos teus gemidos, me desfazer
Quando amanhecer...
Eu quero estar em você
Deixa ser
Eu entrar e sair
Quando amanhecer.
Você toda nua
Roçando minha pele
O teu sal na minha boca
O teu cheiro
Que trago na ponta dos meus dedos
Minha língua sedenta
Do teu suor
Teu sol
Quando ele amanhecer
Deixa queimar meu corpo
Deixa eu penetrar em seus raios
Quando amanhecer
Deixa ser
Deixa eu estar em você
Deixa eu entrar e sair
Quero falar
Ciciar palavras soltas
No calor dos teus gemidos, me desfazer
Quando amanhecer...
Eu quero estar em você
Deixa ser
Eu entrar e sair
Quando amanhecer.
sábado, 15 de fevereiro de 2014
Mulher
Quando olho seu retrato
Estático, sorrindo
Sinto um elefante pisoteando meu peito
Eu sei, é um defeito
Eu só quero sumir
Deixar minhas roupas
Meus rastros, meu cheiro
E nunca mais aparecer por estas paragens
Quero pegar um trem, um barco
Sair nadando
Cercado por tubarões
Completamente nu, ausente de tudo
Caminhar para bem longe
Me perder na estrada
Não querer achar o caminho
Dormir ao relento
É melhor sumir
Ir o mais distante que eu puder
Anular qualquer pensamento
A ter que imaginar o rosto daquela mulher.
Estático, sorrindo
Sinto um elefante pisoteando meu peito
Eu sei, é um defeito
Eu só quero sumir
Deixar minhas roupas
Meus rastros, meu cheiro
E nunca mais aparecer por estas paragens
Quero pegar um trem, um barco
Sair nadando
Cercado por tubarões
Completamente nu, ausente de tudo
Caminhar para bem longe
Me perder na estrada
Não querer achar o caminho
Dormir ao relento
É melhor sumir
Ir o mais distante que eu puder
Anular qualquer pensamento
A ter que imaginar o rosto daquela mulher.
sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014
A Chama
Posto que é chama
O que baila
Diante dos meus olhos tristes
Num balé flamejante e sedutor
E gira, se contorce
Numa dança sedutora de paixão
Me chama
Para dentro de sua chama
Tenho medo
Minha mãe me disse que brincar com fogo pode ser perigoso
Não devemos acender a chama
Se não temos um sentido para isso
E se é sem sentido
Por que sentir?
Por que confundir os pensamentos
E gastar a chama?
Agora,
O silêncio
Do fogo que cessou dentro de tudo
Que não era nada, além de uma chama vazia e solitária
Queimando
Queimando
Queimando
Até cessar.
O que baila
Diante dos meus olhos tristes
Num balé flamejante e sedutor
E gira, se contorce
Numa dança sedutora de paixão
Me chama
Para dentro de sua chama
Tenho medo
Minha mãe me disse que brincar com fogo pode ser perigoso
Não devemos acender a chama
Se não temos um sentido para isso
E se é sem sentido
Por que sentir?
Por que confundir os pensamentos
E gastar a chama?
Agora,
O silêncio
Do fogo que cessou dentro de tudo
Que não era nada, além de uma chama vazia e solitária
Queimando
Queimando
Queimando
Até cessar.
quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014
Dragões.
Soltei meus dragões
Eles voam
Eles queimam
Eles gritam
Soltei meus pulmões
Gritei sem fim
Um quase uivo
Seco
Voei, lá de cima, eu vi
Teus olhos
Tinham cores de medo
Era pavor o que eu via
Vou queimar
Tua pele morena
Com meu cuspe flamejante
Minha rajada de calor
Soltei meus dragões
Já não tenho mais medo
Consigo voar novamente
E caçar tua carcaça
Que queima solene
Na estrada vazia
Que virou sua vida
Depois que meu fogo lhe consumiu.
Eles voam
Eles queimam
Eles gritam
Soltei meus pulmões
Gritei sem fim
Um quase uivo
Seco
Voei, lá de cima, eu vi
Teus olhos
Tinham cores de medo
Era pavor o que eu via
Vou queimar
Tua pele morena
Com meu cuspe flamejante
Minha rajada de calor
Soltei meus dragões
Já não tenho mais medo
Consigo voar novamente
E caçar tua carcaça
Que queima solene
Na estrada vazia
Que virou sua vida
Depois que meu fogo lhe consumiu.
Delirium Tremens
Por que falo?
Por que calo?
No canto da boca
Escorre o motejo
Tudo que eu vejo
É um membro sedento
Querendo teu coito
Elear teu corpo inteiro
No vazio
Ecoar meus desejos
Gritar no teu ouvido
Todo o meu exagero
Por acaso,
O sarcasmo voltou
Não adianta esfriar
Ainda sei botar fogo em tudo
É quando me sondo
Começo a tatear meu pensamento
Revolvo as teias que você me lançou
E reapareço num estrondo
Sou ávido e voraz
Faço da tua carniça
Meu melhor alimento
E me lambuzo da tua agonia.
Por que calo?
No canto da boca
Escorre o motejo
Tudo que eu vejo
É um membro sedento
Querendo teu coito
Elear teu corpo inteiro
No vazio
Ecoar meus desejos
Gritar no teu ouvido
Todo o meu exagero
Por acaso,
O sarcasmo voltou
Não adianta esfriar
Ainda sei botar fogo em tudo
É quando me sondo
Começo a tatear meu pensamento
Revolvo as teias que você me lançou
E reapareço num estrondo
Sou ávido e voraz
Faço da tua carniça
Meu melhor alimento
E me lambuzo da tua agonia.
Entardecer
E se eu mergulhar
No oceano dos teus olhos
Verdes
Vou saber nadar?
E seu viajar até vossa mercê
Vai ser mais que gentileza
Vai ser clara tua beleza
Diante do meu ser
Vou ficar cego
Ou vou conseguir ver
Você sorrindo
Quando enfim entardecer
Vai fazer sol?
Vai chover?
No nosso primeiro entardecer, só sei
Eu vou segurar tua mão.
No oceano dos teus olhos
Verdes
Vou saber nadar?
E seu viajar até vossa mercê
Vai ser mais que gentileza
Vai ser clara tua beleza
Diante do meu ser
Vou ficar cego
Ou vou conseguir ver
Você sorrindo
Quando enfim entardecer
Vai fazer sol?
Vai chover?
No nosso primeiro entardecer, só sei
Eu vou segurar tua mão.
Tormenta
"Por quantos furacões eu vou passar, até encontrar o vento leve? Sou bom de tempestades, sou a própria tempestade e a minha tormenta. Me atormenta, tua tormenta, na minha tormenta, furacão eterno." (TDM)
quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014
FITA ROSA
Guardei uma fita rosa
Para laçar teu coração
Embalar tudo que sinto
Num embrulho bem bonito
Cortei metade numa tira
Uma era para você
A outra guardei
Nunca se sabe como termina o querer
Nem se vamos estar aqui
Quando o dia amanhecer
E a noite passar fria
Teu corpo, ainda quente, querendo grudar ao meu
É difícil, eu sei
Imaginar que eu posso voar
Que posso estar aqui
E, de repente, saltar no infinito
É tão bonito
Quando você sorri
Eu vejo estrelas
Sinto o céu pipocar, luzes e cometas
Lembro da tua voz
Das coisas que me dizia e que jurava serem
Agora que estou um tanto atroz
Tuas sombras me perseguem
Passou por mim, feito um furacão
Bagunçou meu senso
Hoje é apenas um plangor
Simples desencanto
Toda indiferença é amor
Toda vez que o amor fica diferente
Eu quero mais que sumir
Quero germinar flores em você
Regar, rogar, sumir, perecer
O que amarrei na fita rosa
Tinha um presente infinito
Mas você nem quis ver.
Agora é tarde, amor
Olho pro outro pedaço da fita
Ele me fita
É quando fico cego, e nem quero mais ver.
Para laçar teu coração
Embalar tudo que sinto
Num embrulho bem bonito
Cortei metade numa tira
Uma era para você
A outra guardei
Nunca se sabe como termina o querer
Nem se vamos estar aqui
Quando o dia amanhecer
E a noite passar fria
Teu corpo, ainda quente, querendo grudar ao meu
É difícil, eu sei
Imaginar que eu posso voar
Que posso estar aqui
E, de repente, saltar no infinito
É tão bonito
Quando você sorri
Eu vejo estrelas
Sinto o céu pipocar, luzes e cometas
Lembro da tua voz
Das coisas que me dizia e que jurava serem
Agora que estou um tanto atroz
Tuas sombras me perseguem
Passou por mim, feito um furacão
Bagunçou meu senso
Hoje é apenas um plangor
Simples desencanto
Toda indiferença é amor
Toda vez que o amor fica diferente
Eu quero mais que sumir
Quero germinar flores em você
Regar, rogar, sumir, perecer
O que amarrei na fita rosa
Tinha um presente infinito
Mas você nem quis ver.
Agora é tarde, amor
Olho pro outro pedaço da fita
Ele me fita
É quando fico cego, e nem quero mais ver.
quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014
MEDUSA
Musa
Cabelo de Deusa
Medusa
Cintilante, Silvante, Florescendo...
Teus olhinhos
Duas contas
Duas conchas
Onde quero esconder os meus
Todos os sonhos
E desejos
E suspiros
O sabor do vento batendo em teu peito
Parece sol
Cheia de brilho, intensa, radiante
Cega,
Mas faz ver tudo mais claro
Musa-Medusa
Me encanta
Me chama pro fundo dos teus olhinhos
Onde quero mergulhar (sem medo)
Teu mar
Ele é profundo?
Será que vou me afogar
Me ensina a nadar?
Teu colo
O brilho dos teus olhos
Tímidos, me encanta
Sinto que estou encalistrado (ao teu lado)
Minhas palavras são como suspiros
Quero contar tudo baixinho
Quero murmurar no teu ouvido
Que você é Medusa.
(e agora, que virei estátua de pedra, fico aqui só te olhando.)
Cabelo de Deusa
Medusa
Cintilante, Silvante, Florescendo...
Teus olhinhos
Duas contas
Duas conchas
Onde quero esconder os meus
Todos os sonhos
E desejos
E suspiros
O sabor do vento batendo em teu peito
Parece sol
Cheia de brilho, intensa, radiante
Cega,
Mas faz ver tudo mais claro
Musa-Medusa
Me encanta
Me chama pro fundo dos teus olhinhos
Onde quero mergulhar (sem medo)
Teu mar
Ele é profundo?
Será que vou me afogar
Me ensina a nadar?
Teu colo
O brilho dos teus olhos
Tímidos, me encanta
Sinto que estou encalistrado (ao teu lado)
Minhas palavras são como suspiros
Quero contar tudo baixinho
Quero murmurar no teu ouvido
Que você é Medusa.
(e agora, que virei estátua de pedra, fico aqui só te olhando.)
Poema de Boa Noite
Só me resta
O sono
Já que estou com os olhos abertos
Tentando fechar o meu corpo
Baixe minha crista
Deixe eu surfar sua onda
Despeje seus devaneios
Sob minha cama
Me enrole em você
Prenda meu corpo
Depois solte
Me deixe quicar pelo espaço
Eu logo vou ecoar
Escoar meus sentimentos
Numa vala comum
E enterrar essa dor
Acorde agora,
O sono acabou.
PEITO
Ele não dorme
O meu peito
Vive acordado
É sonâmbulo
Tarde da noite
Ele levanta
Anda pela casa
E tropeça nos móveis
O meu peito
É aberto
Sente
O corpo inteiro revirando
É tarde
Melhor acordar
Ou dormir
E não sonhar nunca mais
ou sentir essa dor no peito.
O meu peito
Vive acordado
É sonâmbulo
Tarde da noite
Ele levanta
Anda pela casa
E tropeça nos móveis
O meu peito
É aberto
Sente
O corpo inteiro revirando
É tarde
Melhor acordar
Ou dormir
E não sonhar nunca mais
ou sentir essa dor no peito.
segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014
Espelho
Quando olhei
No espelho dos teus olhos
Vi meu sorriso
Era puro, ouro
Teus olhos me diziam
As mentiras mais verdadeiras
Eu estava cego, mas sentia
Que meu corpo estava ardendo na tua fogueira
meu sorriso era pleno,
voava pelo rosto, abria asas
E deslizava
Pelo céu da minha face
Tem dias na vida que o que importa é acreditar
Tem dias que nem precisavam existir
Ontem,
Quis te olhar de novo
E senti o vazio ecoando
Senti o meu peito ardendo e queimando
A fogueira
Acende e apaga
A chama
Não escutou?
Além de cego, surdo
Além de mudo, o muro
Além de tudo, o nada
Além-mar, vou continuar navegando
(no meu barco imaginário).
sábado, 1 de fevereiro de 2014
RESPIRA
Respira agora
Morre
Logo depois
Do último suspiro
É um grito
Nem tem voz
Mas grita
Em silêncio
É um lamento
E chora
A alma some
Só fica a dor
Quando eu acordei
Você queria deitar em mim
Seu corpo exalava calor
Eu queria sumir
Mas fiquei ali
Sentindo
Aquele calor
E queimei
E morri
Dentro de mim
E, amanhã quando acordar, vou saber
Se estou queimando, ou vou sobreviver.
Morre
Logo depois
Do último suspiro
É um grito
Nem tem voz
Mas grita
Em silêncio
É um lamento
E chora
A alma some
Só fica a dor
Quando eu acordei
Você queria deitar em mim
Seu corpo exalava calor
Eu queria sumir
Mas fiquei ali
Sentindo
Aquele calor
E queimei
E morri
Dentro de mim
E, amanhã quando acordar, vou saber
Se estou queimando, ou vou sobreviver.
tipo agora.
Se dissimula
Se dissolve
Se dilui
Vira nada
Sabe a poeira?
Ela anda devastando minha mente
Faz dois dias que me sinto corroendo
Sinto o líquido escorrendo, sou eu
Quer entender?
Quer saber de tudo, ou de nada.
Quer que seja normal, quando não é
Quer? Quer? Quer?
É tudo seu!
Eu não quero mais nada
Eu desisti de sonhar, de querer
Eu resisti como pude.
Agora não sou nada
Além de um sorriso
Dissimulado
Calculado.
Uma soma
Ou subtração
segunda opção
Subtraindo os sentimentos
Ou o que restou de um sorriso
Vazio. Distante. Sem cor.
Eu sinto o amor
Eu sinto o amor e força dele
Mas é melhor ser honesto
Ou sumir.
Se dissolve
Se dilui
Vira nada
Sabe a poeira?
Ela anda devastando minha mente
Faz dois dias que me sinto corroendo
Sinto o líquido escorrendo, sou eu
Quer entender?
Quer saber de tudo, ou de nada.
Quer que seja normal, quando não é
Quer? Quer? Quer?
É tudo seu!
Eu não quero mais nada
Eu desisti de sonhar, de querer
Eu resisti como pude.
Agora não sou nada
Além de um sorriso
Dissimulado
Calculado.
Uma soma
Ou subtração
segunda opção
Subtraindo os sentimentos
Ou o que restou de um sorriso
Vazio. Distante. Sem cor.
Eu sinto o amor
Eu sinto o amor e força dele
Mas é melhor ser honesto
Ou sumir.
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