sábado, 4 de fevereiro de 2017

Desligue-se



Um vento leve entrava pela janela
Parecia um vento qualquer
Mas naquele momento parecia também ter um outro sentido
Fazia meses que não assistia televisão
Se sentia bem assim, resolveu que não queria mais ter TV
Podia ter essa mesma atitude com as coisas do coração
Mas isso não conseguia, não com a habilidade que necessitava ou pretendia

Muitas coisas aconteciam à sua revelia
Queria ter controle de tudo
Mas não tinha controle nem sobre si mesmo
A brisa lhe cortava a face, suavemente
Como uma carícia leve e fria
Se sentia confortável, era um regojizo para alma combalida

Qual seria a batalha de hoje?
Para onde seus pensamentos lhe enviariam dessa vez?
Pensou qual foi a última vez que abraçou seu Pai
Não lembrava, nem sentia, a saudade se confundia com a indiferença
Da sua mãe, lembrava menos ainda
Por que essas memórias deviam ser importantes?
Tanta coisa imposta que já nem sabemos mais o que realmente queremos viver

O sistema ruiu dentro de mim
Está tudo falido aqui dentro, todas as portas se fechando
A TV não irá documentar nada disso, ela tem ocupações maiores
Ninguém está preocupado desde que tudo ruiu dentro de mim
As pessoas também cuidam de suas próprias ruínas
Amanhã minha mãe chega para me visitar
Eu podia estar feliz com isso, mas me sinto indiferente

É diferente quando eu sinto de verdade
Porque tudo ganha uma cor distinta e louca
Como se todas as cores fossem lançadas, de uma só vez, na mesma tela branca
Meus sonhos, meus monstros
Os medos que me fazem fugir e me trancar
Dentro desse apartamento, desse mundo que criei para me proteger
Do mundo lá fora.
De você.

Desse seu sorriso de Medusa.

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