sexta-feira, 11 de abril de 2014

Falta do Mar

Sinto falta do mar,
do sol caindo,
dos raios fazendo rastros de fogo
na água do rio, quando a tarde cai.

De por os pés na água morna,
de sentar para sentir a brisa.
De ver o por do sol todo dia
e achar isso, o melhor paraíso.

Sinto falta do paraíso,
do barulho do mar,
do sobe e desce da maré,
do cheiro do acarajé quando é de tardinha.

Sinto falta de beijar o vento
Mirando as ondas do teu olhar

Sinto falta do mar.
Quando anoitece, quando amanhece.
Queria deitar na areia.
Esquecer de tudo, ouvir as sereias.

Navegar, até o meio do mar.
Só voltar quando anoitecesse.
Ficar bêbado de tanto amar.
Há mar em tanto lugar, minha vista cansa, e não alcança.

Sinto falta desse paraíso.
Te beijar mirando as ondas.
Deixar que o mar leve tudo,
até mesmo o nosso juízo.

Faz tempo,
Sempre que entro no mar.
Peço licença.
Pra Yemanjá.

terça-feira, 8 de abril de 2014

para finalizar a qualquer momento

Quando chamou ela para dançar, não imaginava que seria tão torturante. O salão estava vazio. Apenas eles se lançaram na pista. A luz das estrelas. A neblina, que lhe lembrava sua cidadezinha no interior, onde ele foi criança, onde cresceu. (…)

Logo no primeiro toque da pele, mesmo com tantos medos por cima, ele sentiu tudo. Todos os pudores. O calor. A tensão. Aquela buceta consistente batendo na sua perna. Latejando. Chamando ele sem chamar, mandando sinais. Raios. Ondas de eletricidade. Sex Appeal. Palavra estranha, preferia chamar de tesão. Foi o que ele sentiu quando tocou naquela pele: tesão.

domingo, 6 de abril de 2014

HOSPITAL

Nos corredores do hospital
Vi pessoas amputadas, crianças enfermas, enfermeiras aflitas.
Passou bem do meu lado um senhor com o pescoço todo inchado
Parecia um Brotero mal-acabado.

Não conseguia respirar?
E o medo da contaminação?
Da irradiação, de tudo o que pudesse existir naquele ar
Não conseguia ver tudo, nem sabia o que respirava.

Medo de tocar nas coisas, medo de sentar
Medo de secreções, medo de estar ali
Medo, simplesmente, por existir
Queria fugir mil quilômetros até sumir.

Nos corredores,
Me esbarrei com uma criança com a cabeça deformada
Agradeci, por ter apenas deformações pequenas
Todas elas solucionáveis, me senti frágil.

Ergui a cabeça,
E chorei.
Me senti muito frágil.
Agradeci a Deus por não ser aquela criança, e rezei.

Imaginando que ela ainda sorria
Sorri junto
Por dentro estava feliz
Acenei, ela acenou para mim, sorri de novo.

Ela partiu, seu destino a esperava
Fiquei com o meu, destino.
E com meu medo
De estar vivo.




Boa Noite, Querida.

E se eu disser
Que não me preocupo com suas pinturas
Nem como você anda, ande com quem quiser
Pouco me importa do teu sorriso, das tuas loucuras

Já não tenho mais
O desassossego de querer navegar
Sem mar
Sem conseguir vazar, para lugar algum

Um rato rodando numa gaiola
O sol que nasce. O sol que se põe.
O escuro, o brilho solitário das estrelas
Consigo ver tudo, mas só agora.

E se eu disser
Que prefiro não dizer nada
É melhor o silêncio, sempre.
Hora de dizer adeus, seja o que for, boa noite querida.


sexta-feira, 4 de abril de 2014

PARÓDIA da PEDRA

No meu caminho tinha uma pedra

Tinha uma pedra no meu caminho

Tinha uma pedra

No meu caminho tinha uma pedra.



Nunca me esquecerei desse acontecimento

Na vida de minhas narinas tão fatigadas.

Nunca me esquecerei que no meio do caminho

Tinha uma pedra

Tinha uma pedra no meu caminho

No meio do caminho eu fumei uma pedra.



(perdão Carlos Drummond de Andrade)

Cruzar

Cruzar meu mundo com as tuas esquinas.

Essa frase rondando na minha cabeça. Cruzar com você a cada esquina. Cruzar a esquina. Cruzar na esquina. Essa frase cruzando na minha cabeça.

Um cruzamento contínuo.

Paisagens de fim de noite

       Quando mais jovem, sabia de tudo com mais facilidade. Era tenaz. O tempo, com o tempo parecia, enferrujava seu brilho colocando uma película de ferrugem fina, quase transparente. Diante de seus olhos. Em volta do seu corpo inteiro.

       Era tarde, passava da meia-noite. Na parte central da sua cabeça, uma dor leve e caminhante lhe visitava, de vez em quando, vinha e passava, e deixava dúvidas na sua imaginação. O frasco de plástico de molho barbecue Hemmer estava no sofá, logo atrás da sua cabeça, fazia já uns três ou quatro dias. Todo dia, ele via essa embalagem, via e não mencionava nada para tirar ela do lugar onde estava estacionada, talvez esperando mofar de verdade. Sentia que às vezes o tempo parava. Tinha sempre uma vontade de acelerar os dias, de correr com as horas, de atropelar os minutos, pisotear os segundos, dilacerar os milésimos. Pela milésima vez pensou nisso. Que podia ser quântico, físico, ou um guru indiano. Que podia flutuar como antigamente, hoje se pegou falando disso com um amigo, perdido entre lembranças vazias de um passado cada vez mais distante. o Tempo. Esse, já não era mais o mesmo. Nem ele era mais o mesmo. Um passo a frente, e ele não era mais aquela pessoa, do último passo.

       Lembrou repentinamente daquele dia, no samba. Tudo parecia tão diferente. As pessoas, o lugar onde estava, aquele sorriso infinitamente distante. Lembrou e quis esquecer, mesmo que com ternura. A vela ainda estava acesa. Até quando? Até onde ela iria queimar? Quantos dias? Meses? Ou anos ainda? Mais perguntas para sua coleção de não-respostas. Tudo para debaixo do tapete da sua inconsciência. Uma velha mania antiga nunca nos abandona. Pensa que é bom manter os pés no chão e o olhar sempre no horizonte, lembra de seu Pai lhe dizendo isso, talvez tenha lhe dito faça pouco tempo, por isso se lembra tão lucidamente. Ele que já foi tão louco, que buscou a loucura sob todas as formas, que viveu dentro dela e depois se regurgitou, se auto-vomitou, se expeliu de si próprio. Ele que já foi feto, já foi feito, já foi cego. Lembra agora daquele samba? Aquele que ele nunca cantou, nunca dançou, nunca sentiu, nem sambou. O vento bate leve no seu rosto, ele lembra da brisa quente da sua cidade, onde ele já foi alguém - hoje é apenas memória, uma vasta lembrança, ou sombra que vaga de vez em quando, em vôos rasantes e depois some no vento. Sem deixar nada, nem poeira. Suspira. Como faz todo dia, ou quase sempre. Não se sente só. Gosta da solitude, sorve a noite em pequenos goles. Pensa que pode terminar depois, ou que nem começou, porque ele boicotou ou não quis começar. É avesso a começos, e também a finais, principalmente os trágicos, mas adora os tropeços. Esses sim, são dignos de louvor. Os tropeços. Os soluços. Os medos do abismo.

       É tarde. Hora de desligar a mente. Sumir por hoje, para voltar daqui a algumas horas. Paisagens de fim de noite, atormentam tudo que ele pensa. Queria esvaziar a mente. Melhor desligar por hoje, e voltar com a programação normal, daqui a algumas horas. Algumas horas. Nunca voltam. Melhor desligar por hoje. É tarde. Mente. Desliga. Volta em algumas horas. Paisagens de fim de noite ficam grudadas na retina. Desliga. Volta. Algumas horas.

quinta-feira, 3 de abril de 2014

Cor

Sentia o gosto
de percevejo na boca
Sentia o seco
da sua saliva

Era outro suor
que encharcava sua pele.
Outro gemido, outro desejo
Acordava e não tinha mais aquele beijo.

Nem sabia
O que tinha
Se ainda tinha
Não sabia de nada

Sentia apenas o gosto
de parafuso na boca
Sentia o eco
O barulho das coisas batendo

Era outro poema
Outra pessoa que lia.
Não sabia interpretar as palavras
Nem cor tinha.

Nem sabia
Que cor tinha
Se ainda tinha
Não tinha mais nada.

Tudo estava incolor
Dentro dele
Tudo estava indolor
O dia amanheceu assim.

terça-feira, 1 de abril de 2014

ROTINA

Mais um cigarro, ele pensava. Talvez o último trago, pensava outra vez e, logo depois, queria esquecer. Era pensamento ruim. E pensamento ruim não se devia permanecer por muito tempo rondando a cabeça. O tempo estava frio, os últimos dias estavam assim, chovendo leve e constante na cidade cinza. Tentava tragar seu Marlboro de filtro vermelho - o único que ele achava que prestasse - mas o fôlego já não era mais o mesmo. Digamos que cinquenta por cento menos, ou mais. Nem queria medir a tristeza de saber disso, preferia o silêncio e o silvo da tragada. A fumaça ia se dissipando pelo ar, que estava sujo como sempre. A cidade cinza não perdoa ninguém. Esse termo ele tinha ouvido pela primeira vez num dos post alucinados do facebook de seu amigo de longas datas Kadu Carlos. Kadu era um revolucionário da internet, usufruidor do slogan maldito: "Matem Todos!". Cidade Cinza e Kadu tinham tudo a ver, pensava. Lá fora, na rua, barulhos irritantes de motores ligados, algo como uma serra trabalhando compulsivamente se confundiam com o barulho dos pássaros cantando e dos carros passando freneticamente, com pequenos intervalos entre si.

O teclado do seu mac estava quebrado. Seu coração estava quebrado. Deitada ao seu lado, estava Cindy, sua gata mais nova, da raça RagDoll. Bom, pelo menos foi isso que lhe disse seu amigo Alexandre, quando passou uns tempos cuidando dela enquanto ele estava fora de casa, viajando. Dizem que gatos conseguem filtrar as energias negativas, naquele momento, ele se apegava fortemente a esse pensamento, tentando transformar isso numa verdade absoluta dentro da sua cabeça. Os últimos dias tinham sido terríveis para seus pensamentos. Por isso, insistia sempre nos pensamentos positivos, isso quando eles pintavam, davam o ar da graça.

Indiferente, queria viver tudo agora, sem pensar no quanto de lenha ainda tinha para queimar. Olha para o maço de cigarros, rasga o papel da embalagem e nota que ainda restam sete cigarros. Será que consegue ficar com sete cigarros até o outro dia? Será que deveria sair para comprar mais um outro maço e não ter problemas durante a madrugada, ou no dia seguinte? Perguntas. Sempre, perguntas. As mesmas respostas, sempre. Rotina cruel.