domingo, 30 de março de 2014

Táctil

    A mão trêmula. Ia subindo lentamente pelo seu corpo, tateando a pele macia de Suzanne. Seus dedos, um pouco porosos - pelo menos, ele achava isso - deslizavam pelas costas, pernas, braços, pescoço, percorrendo ela por inteiro. Cada curva de Suzanne. 

   Ele tinha tomado um ácido, e não sabia até onde isso poderia ser bom ou ruim. Talvez lhe atrapalhasse na hora do coito, talvez ele viajasse demais nas preliminares. E foi o que subitamente aconteceu. Quando viu aquela semi-ninfeta de pernas abertas bem ali na sua frente, não resistiu e deitou a língua naqueles lábios suaves e macios, os pequenos e os grandes. Não importava, eram todos macios, tão macios que ele imaginava estar sorvendo uma espécie fruta molhada, que não se mastigava, nem se dissolvia. Uma pele de textura bem assedada, bem tenra e suada de tanto prazer. Ali, ao toque da sua língua, que silvava de maneira semi-alucinada, em busca de algo além.

   Enquanto se dedicava, com forte devoção, àquela boceta. Borbulhavam milhões de coisas dentro da sua fértil e alucinada imaginação. Um tubo de ensaio em constante e eruptante ebulição.

Adeus.

Adeus, adeus
Já vou embora.
Não sei a hora
que vou partir.

Só sei que agora
Não é minha hora
Pois ainda estou
Escrevendo para ti.

Adeus, agora.
Chegou a hora.
De ir embora.
Nunca mais sentir.

Só sei que na hora
Que não era a minha hora
Cheguei errado de novo,
mas ainda assim insisti.

Adeus, adeus
Melhor ir embora.

Samba-Coração

Se meu coração
Fosse um tambor
Ele faria uma samba todo dia
Para chamar tua atenção.

Mesmo que você não sambasse,
Eu sambaria.
Sapatearia solitário
Até cair o chão.

Faz baticum
Bate bumbum
Paraca tá tum tum
Meu coração-tambor

Samba-Coração
Chora aqui na minha mão
Teu chorinho quentinho
Quase um gemido, um suspiro, coração.


Faz baticum
Bate emoção
Paraca tá tum tum tum
Nesse Samba-Coração

sexta-feira, 14 de março de 2014

Portas

Hoje acordei respirando
Agradeci.
Ainda estou aqui
Já faz algum tempo

São tantas as portas que bati
Dentro de mim mesmo
E fora
A todas abandonei

Continuei abrindo as janelas mesmo assim
Precisava ver o sol
Ou sentir seu calor 
batendo em mim

Assim como, eu bati em tantas portas
E muitas se abriram
Precisava que batesse em mim 
Para fechar minhas janelas

Minha alma precisa do escuro
Para refletir
Sobre o tudo
E o nada

E se agora eu bater
E ninguém mais abrir
Devo insistir?
Até sangrar meus dedos.

Devo cair de fadiga aos teus pés
E chorar
Todas as lágrimas que ainda me restam
Ou ficar nesse silêncio profundo

Hoje eu acordei sorrindo
Logo depois
Chorei.

O sol já brilhava lá fora, há muito tempo.

quinta-feira, 13 de março de 2014

Poema da Ansiedade

Bate asas,
Passarinho.
Aqui na minha gaiola,
aberta, devassada, escancarada.

Voa pela casa
Se debate entre as paredes
Estrebucha, passarinho.
Até cansar, renunciar o vôo e cair no chão.

Seus olhinhos,
tremendo.
Suas asinhas,
tremendo.

Passarinho afoito
Aflito, agitado, alarmado, angustiado... afligido, tanto assim?
Avezinha desassossegada,
batendo suas asinhas nervosas aqui na minha mão.

Meus dedos, também nervosos
Teus olhos alvoroçados e vazios.
Tudo se confunde, Passarinho.
Quero voar com você.

terça-feira, 11 de março de 2014

barulho de mar

O barulho do mar
Sereias cantando ao alvorecer
Me leva para dentro
Me banha em você

Me deixe, me queixe
Deite comigo na areia
Vamos rolar
Até o dia crescer (dentro de nós dois)

É tudo suspeito
Mas o mar nos chama
Você acendeu a fogueira do céu
O sol brilha nas ondas e me convida

E assim, mergulho sem medo
Abro meu peito
Me jogo no mar
Como se entrasse em você

No meu pensamento
É assim que eu sinto.
O meu instinto
É mergulhar.

Silêncio

É verdade, eu não sei.
Ontem, quando liguei para você
tudo parecia indiferente.
Sua voz estava diferente, a minha também.

O acaso.
Pouco caso.
É um atraso.
Risco que não se deve correr.

Lembro quando você sorriu naquela manhã nascendo
Achei tão sincero tudo aquilo
Quis mergulhar
e mergulhei.

Agora é tarde,
o sol já se foi.
O mar levou tudo.
Nada restou.

Nenhum sorriso
Nem lágrimas
Nem lástimas
Nem abrigo, nem céu colorido.

Ficou só o lamento
A espera do nada.
As nuvens passado
Em silêncio.


segunda-feira, 10 de março de 2014

Ela

Ela vem de mansinho
Com aquele jeitinho
Cabelo jogado ao vento
Cheia de truques com as mãos

Faz trejeitos de leoa
Sabe seduzir
Mas sabe ser vadia
Quando quer.

Busca, ataca, range os dentes
Faz valer seu instinto
É mulher.
E tem o sabor do segredo

Guarda malícia
Segredos insólitos
Pegadas invisíveis
Todas as cores do mundo

Transa de tudo
Principalmente, o que eleva a alma
Tenta não perder a calma
Algo impossível nesse mundo.




Pele

eu quero sentir você
até perder a conta
eu quero mil beijos
e mil vezes roubar teu sorriso

me perder na tua vitória
saborear o teu suor
sentir o teu toque
em todo lugar, desde que seja eu

eu quero acordar, depois de tudo
e sentir que ainda estou dentro de você
como um pensamento, uma tatuagem
que te marca a pele

quero sentir tua pele
marcando meu corpo
sentir você me marcando

pele com pele.

quinta-feira, 6 de março de 2014

Passarinho Esquisito

Como consigo conter
Esse bem-te-vi de asas quebradas, que se debate,
aqui nas minhas mãos.
É minha ansiedade batendo suas asinhas.

Como consigo voar?
Será que te escrevo outra carta
E nela outro poema
Se eu conseguir dizer tudo, você ouve?

Já fico aflito
Só de imaginar
e eu imagino tanto
que fico ansioso e frenético

Pela casa, ando quilômetros,
até meus pés sangrarem.
E não durmo, nem soluço, apenas sonho.
Minha imaginação voa e se desfaz como as nuvens.

Como consigo saber
Se esse passarinho sôfrego
Vai cantar, vai voar até você
Deitar no teu colo, te fitar nos olhos, e modular algum segredo.

Sinto ele aqui, estrebuchando
Minhas mãos, mal consigo conter
Ele piando, piando, piando.
Você consegue ouvir?




quarta-feira, 5 de março de 2014

Scrollbar

A vida passando
Em pequenos frames,
de um filme vazio e invasivo.
Não quero mais viver descendo e subindo uma scrollbar

Não quero mais tragar esse cigarro
Quem sabe assim me livro de vez desse pigarro
Que os obstáculos venham e passem
Não os quero como inquilinos

A vida passando,
numa scrollbar.
Prostrado, os olhos vidrados na tela,
lágrimas furtivas.

Não posso mais insistir nesse desacerto
Mereço um novo começo,
quem sabe assim eu acerto.
Ou erro de vez e acumulo outro tropeço.

A vida passando,
diante dos meus olhos,
por entre meus dedos,
nessa scrollbar maldita.

Até quando?
Vou ver,
vou sentir,
a vida passando.


Lama

Colocado na madrugada
Os olhos vidrados
Pensamentos inconvenientes
Se misturam com a fumaça do baseado.

Vaga uma nuvem sob minha cabeça
Sinto o peso da chuva
Dentro dos meus olhos
São como lágrimas represadas

Coração enleado
Misturado numa lama solta
É engodo, pura intrujice
Buraco de armadilha.

Mete a mão
Se quiser
Se meter
Não me responsabilizo.








Nada Mudou

Nada mudou
Apenas o sorriso ficou meio luxado
O curso do rio interno um pouco revolto
Os barcos batendo uns nos outros

Ademais, nada mudou.

De manhã, acorda, respira, bebe água
Levanta, anda, lava as partes
Faz um café, coça as vistas, apruma o horizonte
Todo dia é hora de ir adiante

Mesmo que sinta,
suas emoções perecendo
como frutas numa cesta de vime.
Respira fundo e segue o curso do imo rio.

Nada mudou,
sente seu barco à deriva
no íntimo rio do seu âmago
Está um pouco mais amargo, fora isso, nada mudou.



terça-feira, 4 de março de 2014

Seja Você

Feche suas portas
Se tranque dentro de suas voltas
Inverta nossos diálogos
Mas, "seja você!"

Não invente
Uma personagem nova
Que não cabe nessa novela
E acaba virando um drama

Agora não, tarde demais
Tempo errando o tempo
A volta nunca é igual (nem na mesma volta)
O tempo passa nos ponteiros do relógio

Estou mudo (e vou ficar assim)
Cego, Surdo, Paralítico
É um grito
E eu grito: "Seja você. Agora!"

CAMUFLAGEM

     Faz anos que observo o comportamento das pessoas, e o meu. Faz anos que sinto o peso dos anos pesando sobre os meus pensamentos, sobre como vou me formando, dos últimos tempos para cá. Dói perceber que o tempo passou tão rápido. Dói sentir que tem coisas importantes que ficaram para trás. E não voltam, nem por decreto. Dói ainda mais perceber que ainda hoje cometo os mesmos erros, mas sempre em busca de acertos, de conquistas, de vitórias.
     A vida é um obstáculo atrás do outro, é como uma corrida de salto em barreiras, você corre e você salta, até chegar na linha de chegada imaginária, que nunca tem fim. Pensar assim é fácil, difícil é viver. Difícil é saltar os obstáculos, e não deslizar. E não sentir o peso das palavras. E do sentimento. Tudo errado, vivemos uma geração confusa e perdida. A nossa geração já é outra, estamos aqui e não estamos mais aqui. Somos meio absortos dentro de nossa própria época. Ainda estamos vivos, oras! Estamos aqui, vivendo ainda, respirando esse ar de agora, o mesmo que achamos que não é mais o nosso ar. Hoje, sentimos que estamos sozinhos, mesmo que não estejamos. Sentimos que estamos vazios, mesmo quando estamos cheios de tudo. Mesmo quando há vida. As pontes existem, algumas te levam a lugar nenhum, outras podem ser portais para um paraíso inimaginável. A terra dos sonhos. Por que pensar assim? Porque somos eternos Peter Pans em busca de terra encantada, ora não. Essa síndrome de não querer envelhecer. De querer ser jovem pelo máximo de tempo que se puder ser. Até quando? Até onde? Qual o sentido de tudo isso, além da ponte, o que há mesmo?