domingo, 24 de outubro de 2010

O Homem que Adorava Computadores.

David era viciado em computadores. Ele simplesmente amava aquelas máquinas frias e sem sentimentos. Era capaz de largar tudo para ficar horas em frente ao seu mac. Engolindo a si mesmo. Um certo dia, lá pelas tantas da madrugada, toca o telefone:


- Davidde?!
- Hummmm... - responde sem interesse.
- Tava dando uma olhada na minha agenda, daí resolvi ligar para você, saber como está? O que anda fazendo da vida?
- Quem é que tá falando, hein?! - pergunta David
- É o Jonas. Jonas Ayres. Já fui seu advogado, ziileembra? - fala enrolando a língua.
- Tá bêbado, meu amigo? - fala sorrindo - Já tomou quantas hoje?
- Não é da sua conta. - retruca furioso - liguei porque sou teu amigo, e nós estamos preocupados com você, Eu e Marie.
- Eeepa, peraí!O quê a Marie tem a ver com isso? - David começa a se preocupar com o rumo da conversa - Foi ela que pediu para você me ligar, não foi?
- David, ela te ama. Está preocupada com você. - contendo a voz - Mas você está trocando a Marie por um computador. Você não entende isso? Não enxerga?
- E o que você tem a ver com isso? Posso saber? Virou garoto de recados? Fala sério meu amigo, isso é um número? Fala sério, você tá viajando na madrugada?
- David, você não entende! Está cego, completamente cego e burro.
- Olha aqui, meu amigo... se você ligou para ficar me dizendo que sou cego e burro, é bom desligar logo essa pôrra de telefone. Ou então vai tomar no seu cu, filho da puta!
- David...
- David, o caralho! Vá se foder, agora mesmo! - já furioso - Me deixa em paz! Você sabe que horas são?
- Sei. Tudo bem, você é adulto. sabe o que faz.
- Sei mesmo. E você vá se foder!


David desliga o telefone. Passa as mãos no rosto, tenta se acalmar. Pega um cigarro. Acende. Dá uma tragada tão profunda quanto a dor que sente em seu peito. Não quer ficar com aquela idéia fixa na cabeça. Volta para o computador. Abre o editor de textos e começa a digitar uma poesia:

"... Queria você nua
Como a grama que me acolhe
E me faz sonhar
tão distante e próximo


Éramos tudo
Ou quase
Lembranças furtivas
Morrem a cada amanhecer


Teu coração sorri
Eu choro.
Um pouco de saudade
E as mesmas manias e desejos..."

David olha no relógio. Já passam das 4:45 horas. Outro dia começa a tomar forma. Desde ontem que está em frente ao computador. Pensa no que Jonas havia lhe dito. Pensa que pode ser verdade. Gotas de suor começam a encharcar sua testa e mãos, está tenso. Como se estivesse tendo uma premonição de que algo ruim iria acontecer. Mas David não sabia o que seria. E isso o fazia se fechar cada vez mais no seu mundo de egoísmo e medo. Ele mete a mão nas calças e começa a bulinar seu pênis. Para um lado, para o outro. E também o saco. Para um lado, para o outro. Fica excitado. Seu membro enrijece, ele começa a se masturbar pensando em Marie. Aquele corpinho lindo, com tudo no lugar certo. Está quase a ponto de explodir. Não se contém e goza violentamente. Esperma para todos os lados, no chão, nas mãos, no teclado do computador, escorrendo pelo pênis. A respiração aumenta e diminui, ele sorri e morde os lábios. sente um sentimento perverso, mas logo pensa em esquecer ou em pensar outra coisa. Cospe numa das mãos e passa a saliva na cabeça do pênis. Depois procura um pedaço de papel e trata de se limpar, sem se levantar de onde está. Desde ontem. Pensa no quanto ama Marie. Imagina ela nua, dormindo em casa, um sono puro sob a proteção dos anjos. Olha para o computador e volta a escrever:

"... O que fazer do sonho?
O que restou da dor
Minha sombra dói
Meu corpo cansa


Grito alto, grito em vão
Outras vozes
Substituem
Meu discurso cansado


Vou calar
Cansei da palavra
Quero o sono profundo dos Deuses
Ser Imortal."

David pára de escrever. Olha para o computador. treme por dentro, está confuso. Nervoso. Inquieto. Levanta-se, anda pela sala, olha pela janela e tenta encontrar as estrelas, respira bem fundo, como se buscasse todo o ar perdido. Corre em direção ao computador. Pega-o com as duas mãos e joga-o no chão. Com toda a força que possui. Pedaços voam para todos os lados. Ele se contenta, fica eufórico, sorri contido. Caminha até a porta do banheiro, entra e fecha-a. Pega a escova de dentes e coloca uma pequena quantidade de creme dental. Escova os dentes, repetidas vezes. Ao terminar, escova de novo. Caminha de volta até o quarto, apaga a luz. Já entrando por entre os lençóis, pensa que a vida poderia ser bem melhor sem os malditos computadores. Pensa em ligar para Marie. Mas é tarde. Pensa também que não havia salvado seu arquivo de fotos, antes de destruir o computador. E que Marie teria que ter muito sex appeal de agora em diante, e que ele, deveria encontrar fórmulas secretas para obter mais estímulo. Dormiu sonhando encontrar seu amor, no dia seguinte. Quando acordasse.

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