terça-feira, 26 de outubro de 2010

Azul

AZUL

Quem Sabe a luz
A dor dos teus olhos
Pesados como pedra
Estou preso

Meu mundo, minhas paredes
Pele de concreto armado
Veias metálicas

Sangue violeta, sangue violeta.
(sangue, sangue, sangue)

Penso em chorar
Rasgo meus livros
Corto minhas meias
Quero andar descalço até queimar meus dedos

No chão quente... fogo.
Distante como o ar... seco.
Olhando para o azul... me perco.

Sangue violeta, sangue violeta.
(sangue, sangue, sangue)

Vomito Negro - o filme


O Filme Vomito Negro nasceu em 1993, quando o autor morava na cidade do Rio de Janeiro, num edíficio de 27 andares, chamado Itú. O prédio ficava na esquina da Rua Chile com o Largo da Carioca. De dia, cerca de 500 mil pessoas cruzavam as ruas e alamedas do centro carioca. À noite, se conseguisse enxergar 10 almas vivas, seria muito. Um contraste conflitante, angustiante, paranóico, que levou o autor a escrever o roteiro original desse filme, que retrata os últimos 23 minutos da vida de um poeta decadente e recluso, prestes a explodir. Um odisséia paranóica, uma vertigem constante, uma repulsa expessa como o vômito.

O filme é uma homenagem ao trabalho de artistas marginais como Ed Wood, Willian S. Burroughs, Charles Bukowski, José Mojica Marins entre outros.

Vencedor na categoria Melhor Filme de Público no 1 Festival CURTA-SE em 2000, e Terceiro Melhor Filme da crítica nesse mesmo Festival. Menção Honrosa na Bienal da Une 2003, em Recife.

Um filme de Carlo Bruno Montalvão. Direção de Wagner Mazzega e Carlo Bruno Montalvão. Apresentando: Nino Karva (o poeta), Diane Veloso (a musa), Abel Guaracy (poeta criança), Lindemberg Monteiro (traficante), Fabio Viana (poeta Jovem), e grande elenco.


domingo, 24 de outubro de 2010

O Homem que Adorava Computadores.

David era viciado em computadores. Ele simplesmente amava aquelas máquinas frias e sem sentimentos. Era capaz de largar tudo para ficar horas em frente ao seu mac. Engolindo a si mesmo. Um certo dia, lá pelas tantas da madrugada, toca o telefone:


- Davidde?!
- Hummmm... - responde sem interesse.
- Tava dando uma olhada na minha agenda, daí resolvi ligar para você, saber como está? O que anda fazendo da vida?
- Quem é que tá falando, hein?! - pergunta David
- É o Jonas. Jonas Ayres. Já fui seu advogado, ziileembra? - fala enrolando a língua.
- Tá bêbado, meu amigo? - fala sorrindo - Já tomou quantas hoje?
- Não é da sua conta. - retruca furioso - liguei porque sou teu amigo, e nós estamos preocupados com você, Eu e Marie.
- Eeepa, peraí!O quê a Marie tem a ver com isso? - David começa a se preocupar com o rumo da conversa - Foi ela que pediu para você me ligar, não foi?
- David, ela te ama. Está preocupada com você. - contendo a voz - Mas você está trocando a Marie por um computador. Você não entende isso? Não enxerga?
- E o que você tem a ver com isso? Posso saber? Virou garoto de recados? Fala sério meu amigo, isso é um número? Fala sério, você tá viajando na madrugada?
- David, você não entende! Está cego, completamente cego e burro.
- Olha aqui, meu amigo... se você ligou para ficar me dizendo que sou cego e burro, é bom desligar logo essa pôrra de telefone. Ou então vai tomar no seu cu, filho da puta!
- David...
- David, o caralho! Vá se foder, agora mesmo! - já furioso - Me deixa em paz! Você sabe que horas são?
- Sei. Tudo bem, você é adulto. sabe o que faz.
- Sei mesmo. E você vá se foder!


David desliga o telefone. Passa as mãos no rosto, tenta se acalmar. Pega um cigarro. Acende. Dá uma tragada tão profunda quanto a dor que sente em seu peito. Não quer ficar com aquela idéia fixa na cabeça. Volta para o computador. Abre o editor de textos e começa a digitar uma poesia:

"... Queria você nua
Como a grama que me acolhe
E me faz sonhar
tão distante e próximo


Éramos tudo
Ou quase
Lembranças furtivas
Morrem a cada amanhecer


Teu coração sorri
Eu choro.
Um pouco de saudade
E as mesmas manias e desejos..."

David olha no relógio. Já passam das 4:45 horas. Outro dia começa a tomar forma. Desde ontem que está em frente ao computador. Pensa no que Jonas havia lhe dito. Pensa que pode ser verdade. Gotas de suor começam a encharcar sua testa e mãos, está tenso. Como se estivesse tendo uma premonição de que algo ruim iria acontecer. Mas David não sabia o que seria. E isso o fazia se fechar cada vez mais no seu mundo de egoísmo e medo. Ele mete a mão nas calças e começa a bulinar seu pênis. Para um lado, para o outro. E também o saco. Para um lado, para o outro. Fica excitado. Seu membro enrijece, ele começa a se masturbar pensando em Marie. Aquele corpinho lindo, com tudo no lugar certo. Está quase a ponto de explodir. Não se contém e goza violentamente. Esperma para todos os lados, no chão, nas mãos, no teclado do computador, escorrendo pelo pênis. A respiração aumenta e diminui, ele sorri e morde os lábios. sente um sentimento perverso, mas logo pensa em esquecer ou em pensar outra coisa. Cospe numa das mãos e passa a saliva na cabeça do pênis. Depois procura um pedaço de papel e trata de se limpar, sem se levantar de onde está. Desde ontem. Pensa no quanto ama Marie. Imagina ela nua, dormindo em casa, um sono puro sob a proteção dos anjos. Olha para o computador e volta a escrever:

"... O que fazer do sonho?
O que restou da dor
Minha sombra dói
Meu corpo cansa


Grito alto, grito em vão
Outras vozes
Substituem
Meu discurso cansado


Vou calar
Cansei da palavra
Quero o sono profundo dos Deuses
Ser Imortal."

David pára de escrever. Olha para o computador. treme por dentro, está confuso. Nervoso. Inquieto. Levanta-se, anda pela sala, olha pela janela e tenta encontrar as estrelas, respira bem fundo, como se buscasse todo o ar perdido. Corre em direção ao computador. Pega-o com as duas mãos e joga-o no chão. Com toda a força que possui. Pedaços voam para todos os lados. Ele se contenta, fica eufórico, sorri contido. Caminha até a porta do banheiro, entra e fecha-a. Pega a escova de dentes e coloca uma pequena quantidade de creme dental. Escova os dentes, repetidas vezes. Ao terminar, escova de novo. Caminha de volta até o quarto, apaga a luz. Já entrando por entre os lençóis, pensa que a vida poderia ser bem melhor sem os malditos computadores. Pensa em ligar para Marie. Mas é tarde. Pensa também que não havia salvado seu arquivo de fotos, antes de destruir o computador. E que Marie teria que ter muito sex appeal de agora em diante, e que ele, deveria encontrar fórmulas secretas para obter mais estímulo. Dormiu sonhando encontrar seu amor, no dia seguinte. Quando acordasse.