sábado, 30 de maio de 2015

Quando o tempo atropela


A vida muitas vezes atropela. A novidade vem sorrateira, os dias se passam, nasce o sol, nasce a lua, ambos nascem e morrem todo dia, as coisas acontecem a sua volta e, de repente, passou seu tempo. Importante correr sempre na frente, enquanto isso for possível, mas como correr sempre na frente? Se não somos mais jovens, nem temos o mesmo vigor e agilidade mental de outrora, o mais importante talvez seja se nutrir das novidades deles, das coisas dos jovens. Ou ainda, trazer eles para perto, saber do que pensam, como sentem a vida, ter essa visão mais contemporânea, mais atual das coisas de agora. O tempo grita, urge, é uma mão incessante socando uma porta: Bam! Bam! Bam! Baam!

Ou você abre a porta. Ou fica preso para sempre numa outra dimensão. Como se estivesse aqui, mas na verdade não. Tipo física quântica, só que um pouco mais sócio-cultural, na verdade é você sentir que perdeu para o tempo, para o agora. E que tudo está acontecendo muito rapidamente e que, mais do que nunca, é importante estar dentro do olho do furacão e não do lado de fora, tentando fugir dele. O mais importante é fazer o furacão girar, ser parte dessa engrenagem louca que acontece todo dia ao nosso redor. O tempo. Sempre o tempo, ditando tudo, o ritmo das coisas, as batidas dos nossos corações. O tempo que acalma e que deixa aflito. Que pára por um tempo, e depois acelera comendo os dias com sua fome do fim do mundo. O tempo deixa marcas. Tudo na vida deixa marcas. Algumas são cicatrizes boas de lembrar, outras nem ousamos remexer, são intocáveis.

Rindo alto de tudo, na verdade chorando. Me vejo perdido, nesse exato momento, quando o sol bate pela minha janela, formando uma sombra forte e extensa no chão, que mais parece grandes de uma cela. Estou livre, mas me sinto como se estivesse preso dentro desse mundo, dentro dessa sala, dessa cela imaginária. Como posso fugir de tudo isso? Vejo fotos de viagens que não são minhas e me imagino em todas elas, é frágil pensar assim? São coisas que vem e que passam, furtivas, etéreas e tolas até. O sino tocou mais uma vez. Outra vez que não ouvi. Mais uma em que fiquei parado tentando ouvir, sem saber, sem sentir, sem perceber nada. Minha gata sumiu, faz três dias, ela estava passeando pelo telhado e não voltou. Não sei se volta mais. Estou triste, completamente arrasado, mas não chorei. Não conseguimos nos despedir, a vida é assim, melhor não ter despedidas. Melhor seguir adiante, sempre, até onde der para ir. Agora não vejo mais ela deitada no meio daquela luz misturada com a sombra das grades da janela que dá para o telhado, por onde ela fugiu. Maldita. Ainda mais isso para me atormentar os sentimentos, já não me basta estar tudo retorcido por dentro?

A fumaça que vejo bailando, diante dos meus olhos, é como a vida. Dançando, sumindo, voltando, se contorcendo e evaporando, feito uma sombra solta no ar. Não escuto o barulho do mar, mas eu imagino. É confortante imaginar o mar quando se está com medo. É uma forma de fugir, ou fingir, para não gritar. Quantas vezes eu tenho vontade de gritar. São muitas. Mas, quase sempre, eu prefiro continuar em silêncio apenas observando o movimento dos corpos, a eletricidade das pessoas é algo estranho. Eu já vibrei errado, ainda vibro às vezes, mas tento quase sempre buscar o lado claro das coisas. Isso pode ser positivo em algum momento, então eu insisto. Quem sabe seja uma forma de vibrar. Apague a luz. Quero ouvir essa guitarra gritando alto em meu ouvido, a sala escura. Quem sabe ela volta. Quem sabe.


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