sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Pés de Geleia

Lá estava eu, seguro. Caminhando firme no asfalto duro da minha solidão. Quando, de repente, senti meus pés em nuvens, como se flutuando numa estrada de geleia mole e lisa. Sentia meus pés em nuvens, mas não eram nuvens, nem geleia. Nem o que sentia devia ser verdade. Era apenas um sentimento, e me inundava, e me fazia transbordar lágrimas secas. Tentei aparar. Minhas arestas, meu corpo inteiro, cansado da estrada. Tentei me amparar, em alguma fuga. Alguma resposta vazia, ou nenhuma. Quis me amputar, mas me faltava coragem para perder meus membros. Agora que estou acostumado com meus inquilinos. Com meus monstros com quem já convivo faz muito tempo, desde que comecei a pensar e sentir que luto bravamente contra eles. É cansativo, é enfadonho, chega a ser chato, mas tenho que continuar lutando. Senão eles me vencem, senão eles me cegam, e falam por mim e mentem palavras absurdas a meu respeito. Eu tenho medo deles, mas luto bravamente!

Agora, a sensação da geleia já passou faz tempo, e me encontro perdido em pensamentos, muitos deles vazios, a maioria confusos. Sou um recheio que ainda não foi provado, sou mais que um absurdo completo, sou a antítese de tudo, foi assim que me criei, acho que assim vou morrer um dia. Sendo o avesso do avesso do avesso. Sempre um novo tropeço, e você já não está no mesmo lugar. Não adianta o tempo passar. Tudo parece anestesiado, tudo parece mole e doce, como uma geleia.

- "E se eu me perder?"- retruco
- "Quem irá me salvar?"- me indago
- "Acho que estou só!"- reflito

O tempo passa. Não pára nunca, esse maldito. Quando eu era criança e não sabia chorar. Eu sentei no meio da praça e vi a banda passar, com todas as suas cores, com todas as suas músicas. Vi as pessoas atrás, algumas sorrindo, outras marchando respeitosamente, a maioria se divertido com a algazarra da Lira Filarmônica. Ela sempre se apresentava em frente ao Coreto. E nós, crianças, ficávamos em volta a sorrir, saltitar e brincar de ser maestro. Quando eu era criança, eu não sabia chorar. Eu tinha muitos sentimentos, mas não chorava nunca. Hoje, me pego em lágrimas. São secas como o vento que me corta a face, feito uma navalha seca e cega. Sou dono do meu avesso. O recomeço, estou sempre atrás. Me sinto no meio de um enorme Delay. Um furacão passou do meu lado, meus pés tremeram, meu corpo flutuou alguns sentimentos, mas eu permaneci aqui. Queria ter voado com o furacão. Queria ter rodopiado no espaço. Queria cair em outro planeta, constelação, outra galáxia. Mas agora sou adulto, e choro.

- "E se eu me perder?"
- "Quem irá me salvar?"
- "Acho que estou só!"

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