quinta-feira, 18 de julho de 2013

SOLOMÃO ACORDOU.

Solomão se escora pelas paredes sebentas do banheiro sujo do bar imundo onde ele se encontra, todo desabonado, maltrapilho, inundado em dúvidas, em dívidas passadas (de passados que nunca passam). Solomão vomita palavras nas paredes dos banheiros públicos. Poesias torpes. Letras toscas. Devaneios sem tamanho, nem medida. Aceita esmolas. Aceita afagos. Deita no chão, acorda com a boca grudada no aslfato quente, os lábios em chamas, estorricados, não come nada, não bebe nada. Os olhos vorazes, procuram pelo que ele não sabe - sentir nem medir - nem sabe o que é que procura, mas não pára, dedos vorazes, desejos ávidos, mente oficina do Diabo. Mente vazia. Mente cheia. Oficina do Diabo. Procura pelo vazio, onde achar o vazio? O vazio não se acha, talvez um vaso?! Onde ele possa vomitar seus sonhos. Talvez ele "vaze" dali. Seus olhos não gostam da cor dessa tinta descascada nas paredes sujas desse bar fétido, ele volta sempre ao começo porque seus pensamentos quase sempre estão confusos. Na garganta explode um desejo, é quente, líquido, pode eclodir a qualquer momento, ele pode explodir. Ele pode jorrar pelos poros, sangue, urina, vômito, esperma, excremento ou apenas secreção. Ele pode explodir a qualquer momento.

Solomão lutando contra os parasitas do seu intestino salgado, maltratado, obscuro e contorcido. Solomão dialogando com suas células vivas e buscando ressuscitar as que já estão mortas. É um eterno delírio, é um salto que se leva para longe… e para lugar nenhum. Solomão travando uma guerra diária com suas paranóias, com suas angústias, medos, complexos, fraquezas, traumas, convicções, devaneios… devaneios… devaneios. Solomão gritando que é mais forte que tudo e que o mundo, e sabendo que o mundo está certo e ele está errado de tudo, e todo dia quando vai dormir, pensa no vazio que procura sem achar, simplesmente, porque ele já está ali e Solomão não vê (mas sente). Solomão guerreando mentalmente contra os tumores extra-sensoriais, espaciais, moleculares, extraordinários, estupefactos, adormecidos, sanguinários, mutantes que estão dentro da sua cabeça. Solomão negando eternamente a existência de inquilinos dentro da sua cabeça. Solomão dialogando com os inquilinos dentro da sua cabeça. Solomão acordando ao lado dos seus novos inquilinos e tomando café da manhã com eles. Solomão pensando no dia que vai se ver livre desses novos inquilinos, no dia em que vai enfim, extirpa-los.

Solomão acordou na manhã seguinte. Olhou em volta. Seu quarto parecia vazio. Seu coração parecia vazio. Solomão olhou pela janela, a rua gritava. Cheia de cores, de cheiros, de barulhos e pessoas que ele não conhecia, ou que pouco travava algum tipo de diálogo, estavam todas lá. Solomão, enfim pensou, que talvez estivesse encontrado o vazio que há tanto procurava. E ele estava logo ali, preenchendo todo aquele quarto.

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