sexta-feira, 26 de abril de 2013

Nuvens

Eu olho para as nuvens
Procuro teu rosto
É escuro onde estou
As nuvens me confundem

Já é noite
Logo vem a lua
Mas tua luz
Nunca vem, só as nuvens

Escuto o silêncio
Ele não traz nada
Nem tua presença
Só as nuvens.

Na minha vizinhança
Escuto todos os barulhos
Mas sua voz não escuto
As nuvens me confundem.

As nuvens, nuvens, nuvens.

A esmo

Aqui
Estou
Sou Eu mesmo
A esmo

Olho para frente
Não vejo
Nenhum horizonte
Distante, de mim mesmo

Estou
De frente
Pro espelho
Buscando um instante

Não existe
Não persiste
No erro, nem no rompante
A esmo.

quarta-feira, 17 de abril de 2013

The Flaming Lips + Lightning Bolt - I'm Working at NASA on Acid



Q U E R I A

Queria fumar mil cigarros
Agora mesmo
Tragar tudo de uma vez
E sumir na tragada (assim, do nada)

Queria muito apagar meus passos
Não dar mais passo algum
Se não posso sorrir, e nem posso caminhar
Ninguém vai me impedir de me tragar

Nem de nadar
No mar
Voar no ar
Cair no nada

Nem de esquecer
Que estou aqui
No que posso ser
Se ainda vou crer

Se vai amanhecer
Dentro da minha cabeça
Se vai acontecer
Quando eu olhar pros teus medos

Eu vou perceber?
Vou ter tempo para entender
Vou conseguir respirar
Eu preciso respirar (senão eu piro)

Quando eu antes gritava
E era alto o meu grito
Muitas vezes confundi meu lamento
E chorei sozinho, com medo

Agora, ainda choro
Sozinho
E com medo
Mais medo ainda de caminhar, eu tenho.

Me contenho
Seguro meus ímpetos
Como agora, e sempre
Tenho medo de me atropelar

Eu nem sei dirigir
Nunca quis saber
Mas eu sempre quis saber
Se podia ser mais do que sou.

Até agora não sei
Nada.
Quase.
Nunca.


NEGRO

Quando penso
No negro dos teus olhos
Quero fugir
Quero deitar e germinar sonhos torpes

Quero imaginar
Sua roupa
Você sem roupa
Toda nua, e negra

Quando penso em teus dedos
Penso em meus medos
Os meus dedos dentro dos seus
Medos.

Quando vejo
Teus olhos negros
Eu fujo, de medo
E sonho algo torpe, bem negro.
O SOL

Hoje olhei para o sol
Meu olho ardeu
Coração acelerou
Quando tentei aprumar a vista.

Hoje me queimei
Deitei minha pele
Na areia, me banhei no mar
E esqueci da vida.
A LUA

A lua pinga
No céu
Uma conta
Reluzente

Reluz
Gente
Aqui na terra
Tão pequenininha.
Para que se excitar
Se há sempre freio
Nas coisas da vida
Em tudo o que eu não sei
(ou não consigo ver)
GRITA

Do fundo daquele poço
Escuto seu murmuro
Seu grito surdo
Quase ninguém ouve

Eu mesmo
Só ouço
Porque treinei meus ouvidos
Para a dor.

Você está muito longe
Não consigo alcançar tua mão
Nem que eu tentasse
Nem que eu quisesse

Não consigo enxergar
Teu pavor
Teu rosto sujo
Nem teu medo, mas eu sinto

É tarde demais
Para o perdão
O não, nós já temos
O que não temos é uma corda.
ALGUNS MINUTOS DEPOIS...

Faz vinte anos
Que eu me auto-medico
Com meus próprios medos
Meus sorrisos, que não são meus

Faz dez anos
Que não me reconheço
E busco os pedaços
Que deixei por aí, por ali, acolá.

Faz um ano
Que tento me encontrar
E penso em voltar
Para meu estágio anterior

Faz alguns minutos
Que pensei agora é tarde
Tenho pouco tempo depois de tanto tempo
E o tanto que perdi, já nem sei.

Nem sei
Se amanhã vou acordar
Se vou sorrir
Se vou chorar

Se vou conseguir encarar
Novamente
Por quarenta anos seguidos
Aquilo o que me tornei.
SALÃO

Se eu pegar na tua mão
Para onde eu vou?
Vou olhar, vou querer, vou sentir
Você vai me perceber? (ou vai fingir mais uma vez)

Se eu pegar na tua mão
Devo acreditar que pode ser
Eu sempre sei que não vai acontecer
Mas pago para ver (para errar mais uma vez)

Se eu te chamar
Você vai me ouvir?
Vai dançar comigo?
Ou vou ficar parado no meio do salão (mais uma vez)

quinta-feira, 11 de abril de 2013

Eu me escondo
Da minha sombra
Atrás da janela
Não quero me ver.
SUPERMERCADO

Meu sonho de consumo
É comprar um supermercado
Com tudo dentro
E poder comprar tudo (de novo)

Quando estou triste é assim
Compro tudo
Até o que não preciso
Me sinto um consumista convicto (não minto)

Queria me sentir numa prateleira
Será que você iria me escolher?
Será que iria me ver?
No meio de tantas possibilidades.
Sim, Sim, Sim
Eu posso ser uma águia
Não, Não, Não
Eu não posso voar

Mas posso ver
Todos os teus segredos
Eu não tenho segredos
Eu me abro como um livro

E me deixo
Você me percebe se quiser
Se não quiser
Pode finalmente responder a minha pergunta?

Quem pode me conter?
Se nem eu tenho a medida
Nem do que sou
Nem do que fui

Se nem sei quem sou agora
Se agora nunca sei
Quando vou saber?
Nunca.

No Que Devo Acreditar?


Eu vou acreditar
Em dragões que fodem minha mente
Em nuvens quentes que me molham de suor
Em teu sorriso elástico (essa farsa sombria)

Eu vou deitar
Quero esquecer que vivenciei tudo isso hoje
Ou que nada aconteceu mais uma vez
Pode dançar até o dia amanhecer... amanhã continua.

Eu fico aqui
Com meus muros
Os mesmos que não consigo quase nunca suplantar
Escudos de ilusão

Crio meus monstros e os alimento
Doses cavalares de angústia
Estou quase ficando bêbado, devo parar?
Ou rasgo meus medos e saio gritando, sem roupa e confuso.

Eu não sei
Sinto os sinais, sinto os ruídos, sinto os sinos batendo
Mas não consigo imaginar como deve ser
Não consigo nem pensar (agora).
NERVO

Maldito fiapo de carne
Nervo maldito dos infernos
Enfiado no vão
Dos meus dentes

Brigo, teimo, mordo
Tento te arrancar
Mas nada funciona
Maldição

Nervo nefasto
Calo
Grito
Teu silêncio, nervo maldito, me irrita.

Acho que estou nervoso
É isso, hoje sou todo-nervo.
Blood like a Wine.

Vou jogar um copo de vinho na tua cara
Só para você sentir
Como meu coração está
Transbordando.

Vou rasgar minhas roupas
E jogar tudo fora
Não vou carregar malas
Já basta meu próprio peso

E para onde vou?
Nem sei...
Se vou remando, andando, correndo
Ou se vou tomar carona em algum lugar

Vou jogar fora tudo o que sinto
Eu minto, não vou jogar nada
Apenas quero esquecer
Do teu sorriso

Aquele que um dia foi meu sol
Que se abria cheio de raios
Por entre minhas pernas
Ou meu corpo cansado da noite que nem terminara

Vou jogar um copo de vinho na tua roupa
Quero te fazer sentir
Como estou aqui, transbordando
Meu sangue borbulhando (cabeça girando, girando...)

Vou rasgar minhas veias
Para ver o quanto consigo resistir
Mesmo sem saber, se tenho sangue para isso
Insisto no erro, e continuo me mutilando.
Se eu morrer agora

E agora que encuquei
Que posso morrer a qualquer momento
Logo quando eu mais quero viver
Começam a falhar meus pensamentos

Meu escudo anda fraco
Meu sorriso anda raro
Eu mesmo não ando
Quase nunca saio do meu lugar

Me conformo, calo
Escuto mais do que falo
E quando falo
Sinto que não me ouvem, e calo.

É um eterno retorno
Uma busca infinita por mim mesmo
Até não me encontrar nunca mais
E me perder completamente

Como naqueles dias
Em que se olha no espelho
E nada se vê
Porque não existe nada além de um reflexo vazio

É assim que me sinto agora
Quando penso que posso morrer
Tragando pela última vez esse cigarro
Pensando nas coisas que não vou poder lhe dizer.

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Coração-Comprimido


Coração
Nó que não desata
Coração-comprimido
Nunca tenho a dose certa

Para aplacar minha dor
Meu desamor
Da vida
Nunca tenho a dose

Nem sei a medida
Dessa colher
Se é cheia
Ou vazia

Coração aflito
Desejo infinito
As asas que nunca tive
Onde elas estão quando eu quero voar?

Quando a ponte tiver fim
Onde me jogo
Onde me amparo
Se nem o teu colo consigo medir?

Coração-comprimido
Qual a dose de hoje?
Quantas gotas? (são gotas?!)
Qual a medida que devo tomar

Para aplacar minha dor.