quinta-feira, 11 de junho de 2015

A vida não volta atrás
Segue adiante como um rio sem margem
Teu sorriso não volta mais
Ele agora sorri noutra paisagem

O teu corpo é uma lembrança
Cada vez mais distante
Uma miragem
Não volta mais.

Vejo minhas mãos enrugando
Tenho medo do tempo
De tudo que não volta
O trem desgovernado que vai atropelando tudo

domingo, 7 de junho de 2015

Insistência nº 10

Eu não quero mais ser seu amigo
Não quero ser seu umbigo
Nem ouvir das tuas trepadas
Nem quero saber das tuas aventuras

Eu não quero mais nada contigo
Mesmo assim eu insisto
Nos mesmos momentos confusos
Onde sempre me vejo perdido

Eu não posso imaginar
Mas eu imagino
Não posso sentir, mas como disse
Eu insisto, profundamente.

Horizonte

É longe, eu vejo o sol
Vejo você atrás daquele monte
Acenando seu lenço branco
Gritando meu nome que não ouço

A vida é uma corda no pescoço
Se ficar parado ela te atropela
O trem passa apitando
E deixa tudo para trás

É tarde, o sol vai se pôr
Por detrás daquela montanha
É longe, eu sei
Mas consigo ver no horizonte

Seu lencinho branco.

sexta-feira, 5 de junho de 2015

Maré

É tarde, eu sei
A maré já vai encher
Te vejo sentada aí na areia
A pele morena nua ao entardecer

Te admiro,
Te desejo, de longe
Dentro da água do rio que vai subindo
Assim como me sobe um calor por você

Queima por dentro
É feito um lamento
A água subindo
A maré enchendo

Teu corpo me chama
Acende a fogueira
Vai anoitecer
Eu quero estar quente ao teu lado

quarta-feira, 3 de junho de 2015

Coito

A tua pele lisa e branca
Feito a espuma de uma onda grande
que me derruba, que me retorce
Por onde escorro meus lábios e deito minha língua

O teu grito
Um uivo seco e solto na madrugada
Minha alma aberta, escancarada, todas as portas
Olho para o céu, aflito, e penetro na escuridão.

Tudo úmido
Teu úbere macio
Essa língua
Essa mão que me cinge com maneio inconfundível

Chega de mansinho
Quase complacente
E toma o seu lugar
Na hora do coito.





segunda-feira, 1 de junho de 2015

Cotidiano - nº 01

Enquanto tento escrever algo que preste, sentando em frente a esse mac faz quase duas horas. A capa do disco do Exuma, postada à minha frente - por detrás da tela do computador - parece querer dialogar comigo. Me encarando. Com seus dois olhos negros sombrios e tortos, um olhar grosso, pesado, profundo, dois buracos negros me encarando. Como se quisessem me dizer: "Ei amigo, está chegando sua hora! Melhor ficar atento."

Toda vez que escuto esse disco, tenho medo. Vai ver por isso, agora também tenho um pouco de medo de olhar para ela, aquela capa com dois olhos sinistros, acho que vou colocar o disco de volta na prateleira e esquecer que ele estava olhando para mim.

Não Vai Voltar

Ela não vai voltar
Por mais que eu chore mil dias
Ou que mova cidades
Na minha idade, melhor consolar

No fundo, eu sinto a dor da sua fuga
Se houve um fuga, não sei
A única coisa que sei
É que é melhor não esperar

Talvez ela volte amanhã
Ou nunca mais
Ela não vai voltar
Nunca mais.

A última vez que a vi
Não a vi
Passou por mim
Nem percebi

Ela não vai voltar
Nem que eu mova países
Exploda minhas cicatrizes
Colecione novas varizes

Ela, nunca mais, vai voltar.

Na Beira do Rio

Sentado na beira do rio
A lua joga sua prata
Ilumina a água
Me deixa encantado

Na proa do barco
Eu vi tua carranca
Iluminada
Reluzia feito a prata d'água

A luz da lua
Batendo na água
O pensamento correndo
Maré cheia

Clareia
Esquenta meu corpo
Um gole de cachaça
Pede licença para Yara

Mergulha profundo
Sem medo do fundo
Nem do escuro das águas
A lua, há de pratear

Meu corpo em prantos
Me deita em teu manto
Janaína do mar
A lua prateada vai nos iluminar.

Até a hora do sol voltar.

Por Que?

Sentado no trono
Defecando os problemas do dia a dia
Minha gata cheirando minha perna
Meu coração distante
Pensando na outra gata que perdi,
a de verdade.
Não uma gata humana, uma gata-gata mesmo
Hoje meu irmão me ligou, era bem cedo
Estava dormindo ainda
Consegui pronunciar algumas palavras tortas
Mas o remédio que havia tomado para dormir era mais forte
E me fez dormir novamente
Quando acordei, achei que tivesse sonhado, mas acho que não sonhei.
Faz dias que não sonho.
Meu sono torto por causa da gata que sumiu
Minhas contas que não estou conseguindo pagar
Minha vida escoando
O tempo passando
O relógio na parede.
O alarme do celular.
O interfone que toca.
Você gritando meu nome.
A tarde que era vazia, de repente
Ganhando cor.
Teu cheiro chegando
Me invadido
Como uma onda
Que me atropela num caixote em looping eterno
Queria eu, que fosse, eterno.
Esperto,
deixo o tempo passar.
Melhor não contar nada para ninguém.
Melhor não saber de nada.
Mas o que estou fazendo aqui?
O que estou dizendo?
Por que?